domingo, 11 de março de 2007


O Beijo (1907/08) de GustavKlimt

Retorno ao Quintal

Pois bem! Uma vez expulsa pela serpente da senha não reconhecida, eis que retorno em uma tentativa de me reconciliar com o Quintal. No reencontro, trago algumas mudas e algum fertilizante. Não se trata de fertilizante nos termos de algo motivador para fazer germinar e crescer novas idéias ou para nutrir algumas antigas. Trata-se de bosta mesmo! Na verdade, o ato de bostar já se tornou um hábito perfeitamente aceito pelos freqüentadores do Quintal. Há de se reconhecer que as bostagens são de boa procedência. Então, pode-se considerar que as mudinhas que trago encontrarão um terreno virtual muito bem bostado.
Trouxe um pezinho, bem frágil ainda, de Otimismo. Dizem que não é planta fácil de crescer, mas tenho certeza que ela encontrará no Quintal outros arbustos, mesmo árvores frondosas, da mesma espécie. O problema é que junto veio uma parasita, um capinzinho conhecido como Cansaço Milenar. Só é possível reconhecê-lo no olhar, como a tristeza do olhar de Diana (lembra do Toninho Horta?).
Veio também uma muda de Compartilhar. Ela costuma esparramar a rama pelo chão. Não raro, quando bem bostada, esparrama-se entre as copas das demais plantas. Frequentemente, mas sem aviso, podem brotar pequenas flores de todas as cores. As folhas são bastante miúdas, podendo, ocasionalmente, entupir a tubulação de drenagem. Isso pode provocar pequenos alagamentos e tornar partes do Quintal um tanto quanto pantanosas.
Pois bem. Por hora me despeço. Espero que a serpente não me pertube e eu possa voltar sempre ao Quintal. Quem sabe vai ter uma goiabeira com goiabas vermelhas? Até hoje, encontrei uma abobrinha, um pedaço de mar, um gurufim.... Tá grande esse Quintal.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Diálogo possível



Essa aqui, onde era?


Ah, essa foi na viagem pra Oktoberfest. Em vez de fazer uma parada só, o ônibus tinha que parar umas três vezes porque o povo não se agüentava de vontade de mijar...


Kkkkkkkkkkkk!


Sério... Kkkkkkkkk!


E esse? E esse? Quem é?!


Não sei.


Como não sabe?


Ué, não sei. Não fui eu que bati a foto...


Mas tu tens uma foto de um cara quase pelado em cima de uma cama e não sabes quem é?


É. Kkkkkkkkkk!


Também não sabes como ela veio parar aqui, no meio das tuas fotos?


Pois é... Alguém deve ter deixado de presente! Mas presente mesmo seria se fosse ao vivo, né não?


Com certeza. Um baita presente!


Vou lá buscar uma cerveja; quer uma?


Quero.



Hummm, tá geladinha, geladinha!


Posso levar?


A cerveja?


Não. A foto.


Que?


Posso levar a foto do cara pra mim?


Claro que não!


Ué, por que? Tu nem sabes quem é...


Sim, mas é minha! Me deram.


Como tens certeza disso? Podem simplesmente ter esquecido aqui.


[...]


Então? Me dá?


Como é que eu vou te dar? Não é minha...


É tua ou não é, porra?


Sim, é. Quer dizer... não é. Ah, sei lá... É que eu já criei um vínculo com essa foto, com esse cara, sabe? Já inventei um monte de histórias com eles.


Com eles?


É, com o cara e com a foto. Uma vez falei pr'um colega do trabalho que o cara foi uma namorado francês que conheci em Salvador...


Mas tu nunca esteve em Salvador!


Pois é... Nem nunca conheci um francês... Falei que a gente ficou namorando a distância e que ele me mandava umas fotos assim.


E o cara acreditou?


Claro. E eu quase acreditei também, de tão boas que eram as minhas descrições dos lugares e dos dias com o cara da foto.


E ele tinha nome? O da foto?


Tinha. Era Louis... Só parei de contar essa história quando o tal colega falou pra outra pessoa do trabalho sobre a minha viagem a Salvador.


E aí?


E aí essa criatura queria conversar comigo sobre as belezas da capital baiana e eu só sabia falar do Pelourinho e do Elevador Lacerda...


Kkkkkkkk! Esse negócio não te fez bem. Me dá aqui essa foto que eu vou levar! Até porque ele não tem a menor cara de francês.


quarta-feira, 7 de março de 2007

frustração literária


Eu não entendo as palavras. Nem as palavras nem a escrita. Quisera eu ter o dom de por arrimo nelas, cavalgá-las, fazê-las dizer aquilo que vejo. Sim, sim, palavras não são para serem vistas, esse é o porém. Para mim,as palavras são coisas, aquilo que ouço é concreto, demais. Psicose? Talvez. Mas isso explica o fato de ter mais facilidade em escrever poesia do que prosa, de me ser quase impossível blogar sem me referir a uma imagem. Som é coisa? Por que algumas palavras são boas de falar? Hipotenusa, calangueiro, mandioca, bochecha, carambola, caramigau, peremptório, carcará, umbrela. São palavras pra gente brincar de falar, instrumentos pedagógicos, brinquedinhos de língua.Outras, achamos feias: pochete, suvaco, pernilongo, marrom, escroque, cacete. Como pode uma palavras ser feia? Feiúra qualidade de coisa, material. Ainda há as bonitas, elegantes. São palavras dignas de se falar tomando vinho, ao pé de uma lareira... Olha eu de novo dando imagem... Simplesmente, púrpura, sobretudo, mágoa, alma, flamejante, nuvem, simplesmente, púrpura, sobretudo, mágoa, alma, flamejante, nuvem, acalanto...

ps. as palavras em suas definições são contribuições mequetréficas.


Garota, eu vou para Hollywood

Bom, eu estava pensando em escrever uma coisa bem engraçadinha, uma espécie de diálogo... uma conversa entre as jardineiras aqui sobre uma suposta licitação que Deus teria aberto para contratar alguém que fizesse um novo layout do mundo – digamos assim, uma versão 2.0 desse nosso planetinha. Eis que, na minha navegação diária por blogs e sites, caí no http://revistatpm.uol.com.br/.
Quisera eu que isso não tivesse acontecido e que não tivesse visto a chamada para um ensaio com o cineasta Heitor Dhalia. Fui conferir, porque tinha lido uma matéria na revista Set sobre o filme dele que está para ser lançado este mês, O Cheiro do Ralo, e porque já assisti ao louco Nina, também dele, com a Guta Stresser no papel que dá nome ao filme.
Pois bem. A chamada da budega era assim: “Garota, eu vou para Hollywood. Obsessivo, workaholic e inteligente, Heitor Dhalia é o cineasta brasileiro do momento. Talentoso e sedutor, arranca elogios da crítica e provoca calafrios nas mulheres” - comecei a imaginar que boa coisa não me aguardava nessa leitura... e acertei.
Tudo bem, traçar um perfil do cara, contar sua trajetória, mas era necessário perguntar sobre relacionamentos e coisas afins? O indivíduo, que parece ser coerente, bem que tentou fugir: “Falar sobre mulher numa revista feminina? [pensa bastante] Preciso mesmo falar?”.

Mas a jornalista não se deu por vencida e, ao invés de questionar sobre o filme, sobre a dificuldade de se levantar dinheiro e de fazer o projeto ser aceito (de forma bem básica, é a história de um homem que se apaixona por uma bunda), por exemplo, fez o cineasta falar acerca da fama de sedutor, fidelidade, paternidade. Ai, que raiva! Por que revista feminina teima em fazer isso? Só porque o cara é bonito e/ou heterossexual e/ou solteiro, a mulherada vai se interessar mais em saber o que ele tem a dizer sobre esses assuntos que sobre seu próprio trabalho?
Olha, juro que vou comprar a revista na banca para ver se traz alguma coisa além do que está no site, alguma coisa que se aproveite, mas só amanhã... porque a decepção já foi suficiente por hoje.

terça-feira, 6 de março de 2007

cada uma com a sua cada uma


Algumas a definem geladinha, murchinha, rs. Outras, pensam que a sua é uma estação, na qual inevitavelmente o trem passará. Algumas a querem bem sujinha, outras, saudável, remediada. Por vezes ela vem sangrenta (molho bolonhesa, diria um amigo meu). Ou então bem acobertada por um maiô fora de moda.
Acompanhando os grandes alardes do dia internacional da mulher (que foi ontem) creio que o que realmente nos define e identifica são as abobrinhas, escarolas, alfaces... Afinal, não seria esse o jardim literal?

A Abobrinha

Na geladeira encontro alguns ovos, um queijo quase no seu fim, peito de peru e um vinho que não consegui abri desde que quebrei o saca-rolhas. Há também uma abobrinha que está de aniversário! Há muito tempo ela vive "solitária" na geladeira.

Eu olho para ela, ela me vê e nós trocamos algumas sílabas. A abobrinha quer que eu a veja e resgate-a. Mas não o faço, ou por preguiça de cozinhá-la ou por ela de certa maneira lembrar de quando minha mãe morava comigo.

Na verdade, a abobrinha ali sozinha olhando para mim, guardada, tem mais significado do que os ovos, o queijo, o peito de peru, as garrafas vazias de água. Ela está na geladeira para eu lembrar dela. Um dia posso arremessá-la ao lixo ou de repente comê-la. Sinceramente, não sei se vou fazer isso . A abobrinha é minha companheira, tenho um vínculo emocional. Na real, ela não tem escolha. Eu controlo a. Ela, a abobrinha está sob o meu poder. Eu tenho o poder decisório, se ela vai para a panela ou vai terminar seus dias murchando, trancada na geladeira.

Trancafiada, perto de mim, sob meus olhos, lá se encontra a frágil abobrinha. Ela não consegue fugir, pois não dou essa escolha. Quando ela pensa nisso eu a conforto e convenço que o melhor que ela pode fazer é continuar ali na geladeira. Conservada, reservada para meus caprichos.

Sabe, acho que fiz uma transferência. Às vezes, me sinto uma abobrinha no fundo da geladeira. Mesmo estando entre a goiabada e o vinho tinto seco, a abobrinha sabe que está só. Talvez, no escuro da gealdeira ela se relaciona com alguém!

A abobrinha pode até ter anseio de liberdade, mas não deixo isso acontecer. E eu, posso ter várias oportunidades de transformar, mas fico trancada no escuro da geladeira.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Minha vida de cachorro em Campo Grande

Campo Grande já ficou conhecida no cenário nacional por ser uma das cidades com o maior número de carros por habitante ou o menor número de habitantes por carro – escolham. É claro que isso dá notícia, até porque o trânsito da cidade foi considerado um dos mais indisciplinados do país, que por sua vez tem o pior trânsito do mundo. Resultado: fomos parar no Jornal Nacional.
Aquilo de que ninguém ainda se deu conta, porém, é que Campo Grande talvez se notabilize por algo muito mais “animal”: a cidade deve ter o maior índice de cachorros per capita do planeta. É verdade. Campo Grande é um verdadeiro canil. Na Vila Alba, por exemplo, onde morei por mais de 15 anos, tinha a impressão de que a quadra onde se localizava minha casa, na Avenida Madrid, poderia entrar para o Guiness Book como o local de maior concentração de cachorros por metro quadrado do Universo – depois de cientificamente comprovada a existência de cachorros no resto do Universo, é claro. Não havia nenhuma casa com menos de três cachorros (com exceção da minha, onde só havia um, por insistência de minha mãe).
É quase humanamente impossível dormir numa situação dessas. As alternativas são: a) dormir à tardinha, antes dos cachorros começarem a latir; b) dormir de manhã, depois que os cachorros pararem de latir; c) gostar de dormir ao som de latidos e d) não dormir. Ah! Pode-se usar tampão de ouvido, também.
As tentativas de acalmar os cães são geralmente infrutíferas. Primeiro, porque eles não latem de nervoso. Latem de alegria, latem para se comunicar e latem quando entram desconhecidos. Tenho a impressão de que também latem para irritar humanos. Na ânsia de aquietá-los, tentei João Gilberto, certa vez. Não deu certo, porque, por mais que eu aumentasse o volume, o som dos latidos sempre suplantava a voz do meu cantor favorito. Desisti da idéia dos soníferos depois de fazer pesquisa de preço nas farmácias e ao ser advertida sobre a existência da Sociedade Protetora dos Animais em Campo Grande (sim, os soníferos seriam para eles, os cães, não para mim, que odeio usar drogas – para dormir).
Mudei-me para outro bairro, Santo Amaro, e a esperança de dormir em paz desvaneceu-se na primeira noite. Estou pensando em rever a indicação da Vila Alba para o Livro dos Recordes.
O grande número de cachorros não traz dificuldades somente aos que buscam um sono tranqüilo. Para os caminhantes noturnos, a cachorrada é um problema. No centro da cidade, tudo bem, mas nos bairros não dá para andar nas calçadas à noite. Os notívagos têm de andar na rua se não quiserem ir aos sobressaltos. Enormes cachorros pulam detrás de grades e muros aparentemente inofensivos e devem ser os responsáveis por muitos infartos não explicados na calada da noite. Com todos os riscos, andar no meio da pista de rolamento ainda é preferível – os carros, no mais das vezes, são identificáveis pelos faróis.
Por outro lado, a população canina de Campo Grande poderia ser uma atração turística. Raças, tamanhos e cores os mais variados. Certo dia, vi um cachorro do tamanho de um bezerro. Acho que era um fila. Lembrei-me imediatamente daqueles filmes de terror, com cães de olhos vermelhos e dentes pontiagudos. Daria uma superprodução.
Pensando bem, há que se fazer justiça aos pobres bichinhos. Seus defensores alegam que eles protegem as casas e são boas companhias para as crianças. De volta ao início, os motoristas indisciplinados, que acham que pedestre não é gente e nos levam a passar vergonha em cadeia nacional de televisão, ainda são as piores pragas da Cidade Morena.

sábado, 3 de março de 2007

Mais despedidas... ou cicatrizes!

Em clima de recuperação, penso que aproveito para resolver histórias. Não sei bem se resolver é a palavra certa, ou se elas ficarão bem resolvidas. Talvez, cicatrizar coisas. Antibióticos têm esse poder também! A idéia não é matar nada nem expulsar ninguém. Acho que é só uma espécie de arrumação da casa... cada coisa no seu lugar, tirar poeira, abrir espaço. Nem quero ainda mudar de endereço. É só arrumar mesmo! Nessa tarefa, a médica-faxineira Daúde me ajudou. Vejam só:
Sans Dire Adieu
Letra de Paulinho Moska

Eu chorei até ficar debaixo d’água submerso por você
Gritei até perder o ar que eu já nem tinha pra sobreviver
Eu andei
Eu andei até chegar no último lugar pisado por alguém
Só pra poder provar o que era estar depois do final, do além
Eu andei
E cheguei exatamente onde algum dia
Você disse que partia pra nunca mais voltar
E eu já estava lá a te esperar
Sem dizer
Adeus
Eu fiquei sozinho até pensar que está sozinho é achar que tem alguém
Já me esqueci do que não fiz e o que farei pra te esquecer também
Se eu...
Não sei o nome do que sinto
Não tem nome que domine o meu querer
Não vou voltar atrás
O chão sumiu a cada passo que eu dei
Andei
E cheguei exatamente onde algum dia
Você disse que partia pra nunca mais voltar
E eu já estava lá a te esperar
Sem dizer
Adeus, adeus, adeus...
Haja pano, água e disposição pra dar conta dessa faxina! Ai, ai...

Despedida em grande estilo...


Bactrim F.
Vitamina C.
Novalgina (ou simplesmente dipirona).
Buscopan composto.
Digesan.
Pedialite 90.
Levoxin.
Vonau.


Exceto do segundo e do penúltimo da lista, me despeço de todos os outros que me companharam durante essa semana. Sem passar por ingrata, reconheço todo suporte que me deram. Diria que não aguentaria sem vocês. Mas confesso que a vida é bem melhor agora! Por isso, os que sobram eu designo ao bom e velho armário das emergências, esperando não ter que abrir a porta tão cedo!

sexta-feira, 2 de março de 2007

o que se faz ridículo?


o batman? a infâmia? a fraqueza? a pequenez? a ousadia? a sem-vergonhice? a enganação?

quinta-feira, 1 de março de 2007

Quando morrer, quero um gurufim

Para boa parte das pessoas – ao menos as brasileiras – a morte é uma coisa terrível e o simples ato de falar sobre o assunto é considerado algo de mau gosto. Claro que ninguém deseja ver os outros morrendo ou morrer (fora o pessoal que aderiu à moda de se atirar do Pátio Brasil Shopping), mas quanto mais nos afastamos, mais a morte se apresenta de forma assustadora, não é?

Antigamente era comum que os mortos fossem velados em suas próprias casas. Rolava comida, bebida e, inevitavelmente, o velório virava festa – ou pelo menos eram dadas boas risadas. Minha mãe tem histórias engraçadíssimas sobre os velórios da família. Ela mesma, no entanto, não conseguiu transmitir para os filhos essa leveza com a qual a morte pode ser tratada.

Só fui assistir a um velório aos onze anos, forçada pela catequista, quando entraram dois caixões na igreja onde ensaiávamos os cantos para a primeira comunhão. Nunca tinha chegado perto de um caixão, não conhecia os rapazes que haviam morrido e a doida me pegou pelo braço dizendo: “Vai lá, olha pra eles e reza”. Na época ocorrera uma enchente na cidade. Eles ainda tinham lama escorrendo pelos cantos dos lábios. Essa imagem não me deixou dormir direito por uns bons dias.

Quatro anos mais tarde, foi a vez da morte do meu pai. Não consegui chegar perto dele enquanto o caixão estava aberto. Olhava de longe, ele branco feito papel, e minhas pernas não me permitiam uma aproximação. Como é que pode?, hoje eu penso. Era o meu pai, por que eu tinha medo? O fato de ter sido sempre afastada de velórios e enterros me deixou essa idéia... de que tudo relacionado à morte era pavoroso e sombrio.

Quisera eu ter sido como o Enzo, filho de seis anos de uma prima, que no velório da minha vó ficou arrumando as flores em volta dela, acariciando e comparando as mãos dela com as de outra senhora que estava sendo velada no mesmo local. Era a vó com quem ele tinha mais proximidade. Não teve medo porque já sabe que todo mundo vai ter flores ao redor de si um dia – coisa que demorei para digerir.

Agora que não me parece mais tão amedrontador o verbo morrer, vou querer que façam um gurufim quando eu 'passar dessa pra melhor'. “Velório para os pobres se chama gurufim. E gurufim de verdade sempre acaba em samba”, diz o sambista Wilson das Neves. “É uma festa de despedida para a alma do morto seguir feliz até o céu. Mas hoje em dia não tem mais isso não. Só acontece em casos especiais, como na despedida do Mário Lago”. E na da Lídia, ele esqueceu de acrescentar. Ou foi o jornalista que cortou?

Na estação



O trem passará às 7:15. Provavelmente. Não passsará das oito. Caso ocorra algum problema, creio que até às 9:20 estarei nele. Nada o fará aparecer depois das dez e dez, no máximo dez e quarenta. Sei que por aqui ele não deixa de passar.

inspiração baiana

de dentro de meu ninho quero ficar sem tomar banho; dias... depois, eu concê combinando, ficar tão juntinho, que chega vai grudar. meu moreno!

Descoberta...


NUNCA TRANSEI NA MINHA PRÓPRIA CAMA
Fiquei imaginando como seria...

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Para Mariana

Quando me virei para pegar o jornal, meti as unhas na parede. De bico. Pressenti a dor. Fechei os olhos e esperei que viesse. Ela veio. Intensa. Fiquei com os olhos fechados durante alguns minutos. Imaginei os dedos da mão enormes, vermelhos, com o sangue fluindo para as pontas e coagulando, tornando-as, aos poucos, pretas, até arrebentarem. O líquido podre caindo e se espalhando pelo chão do quarto. A dor começou a passar. Abri os olhos e mirei minhas mãos. Estavam normais, nem sequer vermelhas. Pálidas, as unhas pequenas e arrebitadas como sempre. Bobagem, pensei. Onde já se viu sangue coagulado se espalhar pelo chão?

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Caipira

A água jorrando da torneira batia nas costas das mãos, brincando entre os dedos. Com um movimento brusco, ela conseguiu com que as gostas caíssem com mais força, fazendo furinhos na espuma dentro do tanque. Parada, olhando os movimentos da água sobre a espuma, lembrou-se do mar. Como era bom o mar. Há quanto tempo ela não via aquela imensidão de água.

Da única vez que fora ao litoral, aos quinze anos, guardava boas lembranças. No início, a timidez. Vergonha de se despir, branquela e gordinha, diante daqueles corpos bronzeados. A tia insistindo para que entrasse logo na água.

Aos poucos, tomando coragem, esquecida do maiô fora de moda, foi colocando os pés na água, entrando de mansinho. Um misto de receio e alegria; as ondas batendo nas coxas. Por um instante imaginou que a massagem da água poderia lhe modelar as pernas e deixá-las como as das modelos de revistas.

Logo, coberta pela água até os ombros, não pensava em mais nada. O mar todo a envolvia e era como se ela toda o envolvesse. Uma união nunca sentida antes. Despertou do transe com os gritos da tia, pedindo para que não fosse muito longe. Voltou devagarinho, sentindo aos poucos cada parte do corpo que se expunha ao ar.

Já não via os corpos perfeitos, os biquínis modernos. Só aquela sensação de perda, aos pedaços, como se sua pele houvesse ficado lá, dentro do mar. Colocou a saída de paia e sorriu para a tia.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Hoje, enquanto eu tomava banho, minha irmã ligou. O Luis atendeu e repassou a pergunta: A mãe já te ligou? Não. (Por que? Deveria ter ligado? Fiquei pensando com meu umbigo... na noite anterior tinha sonhado que um primo morrera. Ih, morreu alguém...) Aí ele falou que minha irmã estava avisando que a vó tinha ido embora. Essas foram as palavras do Luis, que é uma criatura sensível... Mas é isso, minha vó morreu. A única que conheci. A que todo mundo achava que não iria morrer, de tantas que foram as vezes que quase morreu – parente do Highlander, eu falava. A que enterrou, no ano passado, uma das filhas que cuidava dela. Enfim morreu. Eu, daqui de longe, nem consigo chorar. Minha mãe também não deve estar chorando. Aliás, acho que todos vão ficar descansados agora - inclusive o vô, ainda que vá sentir falta das rabugices da mulher com quem viveu mais de sessenta anos.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Boas respostas para perguntas bobas


O "para sempre" sempre acaba?

Humm... Sempre acaba? Mas têm “para sempres” que são ótimos quando acabam.

Desde sempre sempre espero que não.



Rir é o melhor remédio?

Diria um dos melhores. Junto dele está o sexo, a acupuntura e a neosaldina (não necessariamente nessa ordem)

Com certeza! Só é preciso tomar cuidado com o local e motivo pelo qual se ri.

Rir é o melhor remédio? Tem remédio que faz rir...



Que cor tu terias se derretesses?

Vixe! Num derreto não... Calor específico muito, muito alto!

Sabe banha derretida? Então.



Língua solta implica rabo preso?

Às vezes. Mas rabo solto implica várias línguas soltas, sempre.



Teus olhos são fãs de que beleza?

Prefiro o método braile.



Racionalizar o amor é não amar?

O mito do amor romântico é uma estratégia do sistema capitalista, ideologicamente imposta, que mantém as pessoas, principalmente as mulheres, presas ao núcleo familiar monogâmico, necessidade imperiosa desse sistema para sua própria perpetuação. Portanto, amor - tanto a relação afetivo-sexual entre duas pessoas, quanto outras formas, como amor maternal, filial, fraternal, etc. - é uma questão cultural, portanto, variável. Ih, racionalizei?



Prêmio da megasena acumulada ou a paz na Terra?

Ah, paz na Terra, vai.

Paz na terra, e na minha conta bancária.



Bom é não saber o quanto a vida dura?

É. O pessoal que trabalha com previdências privadas é que não deve achar isso.

A vida dura?



Qual é a tua primeira lembrança dessa vida?

Quando eu fugi de casa aos quatro anos com o meu coleguinha para ir ao parquinho. A segunda lembrança é a da palmada na bunda que eu levei depois.

Inveja dos meus irmãos. Eles tinham dever de casa, e eu, palhacinhos de colorir. humpf.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Canetas

Tenho três canetas sobre minha mesa. E nenhuma idéia. Estranhamente, tenho três canetas sobre minha mesa. Normalmente, não há nenhuma. Tampouco há idéias. A diferença, agora, é que há três canetas sobre minha mesa. Por que estarão todas elas aqui hoje? Não consigo atinar a nada sobre como utilizá-las. Sei que estão. Sobre minha mesa. Não se mexem, não se oferecem. Estão. Devo tomar uma atitude. Entre usá-las ou tirá-las de minha vista, fico em dúvida. Não sei o que será de mim sem canetas sobre minha mesa. Tampouco sei o que será com três. Mas as tenho. Sobre minha mesa. Caso resolva o que fazer, terei de manuseá-las uma por vez. Pego uma e tenho duas canetas sobre minha mesa e uma entre meus dedos. Se trocá-las a situação continuará a mesma. Preciso entender o que mudaria com uma caneta entre meus dedos e duas sobre minha mesa. Se as tivesse, as três, nas minhas mãos, poderia fazer três riscos simultâneos sobre o papel. Também precisaria descobrir a utilidade disso. O melhor é ter uma caneta para manusear e duas sobre a mesa. Caso se acabasse a tinta da primeira, utilizaria uma das duas restantes. Para que a carga da primeira caneta se acabe, há duas hipóteses. Ou estaria ela já com muito pouca tinta ou seria necessário escrever muito. Neste caso, nenhuma das possibilidades existe. As três canetas sobre minha mesa são novas, e eu ainda não escrevi nada. A primeira caneta, portanto, permaneceria muito tempo entre meus dedos. Teria duas canetas sobre minha mesa. E não se pode saber o que fazer com elas.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Ouçam

Quem aí já ouviu o cd da Mart'nália ao vivo? Pois ouçam. Entre muita coisa legal, tem a belezura cuja letra transcrevo abaixo...


Benditas (Mart'nália e Zélia Duncan)

Benditas as coisas que não sei
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Nos amores que nunca encontrei
Benditas coisas que não sejam
benditas

A vida é curta mas enquanto durar
Posso durante um minuto ou mais
Te beijar pra sempre
o amor não mente,
não mente jamais
E desconhece
no relógio o velho futuro
O tempo escorre num piscar de olhos
E dura muito além
dos nossos sonhos mais puros

Bom é não saber
o quanto a vida dura
Ou se estarei aqui
na primavera futura
Posso brincar de eternidade agora
Sem culpa / nenhuma

Benditas as coisas que não sei
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Nos amores que nunca encontrei
Benditas coisas que não sejam
benditas

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Chega!!!

Affe que assim num dou mais conta! A Viagem que num chega, o dinheiro que é curto. O sonho vira ansiedade. A uma semana do paraíso, nada mais faz sentido. Trabalhar pra quê, se semana que vem saio de férias? Sair pra que? Se ainda estou em Brasília? Pra que comprar um biquini se inda estou sem praia? Não há mais alegrias por aqui que não sejam as preparações e sonhamentos. Queria eu ser inteirinha férias. Quero ver a língua do mar, os cabelos dos coqueiros, e gente morena, preta, índia. Quero um sotaque baiano ritimando meu caminhar. Me dá água de coco? Peixe? Cerveja? Areia que é bom. O sol me toca na alma, me deixa quentinha e feliz. Não quero mais calça, me dá o biquini? Me tira daquiiiiiii!!!!!! Tenho muitas urgências: Préférias.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Viajar é bom mas planejar também o é


A vida fica leve e, de repente, tudo faz sentido. O dinheiro e a falta dele. O trabalho e, ah!, a ausência dele. Férias. O que seria da vida não fosse as férias??? Se trabalho é tripalium (instrumento agrícola de cultura de cereais, também utilizado como instrumento de tortura) a viagem de férias é um opium, uma religião. Cremos nela, (vida após a morte?), acreditamos que ela um dia virá arrefecer e significar toda uma passagem anterior de renúncias. Em férias, tudo é permitido, acordar tarde, viver sem relógio, comer o que quiser, fazer amor dia e noite. Férias é subversão. Daí que viajar é bom mas planejar também o é, pois o que resta ao trabalhador senão a promessa do paraíso?, o que nos resta senão a labuta cotidiana de nosso corpo engajado na promessa de um descanso feliz. Se o orgasmo é uma 'petite mort', então férias, 'grande mort'. Que eu descanse em paz.
ps. a imagem, a única que me veio a mente, é a contracapa do disco foreigner, de cat stevens.

Viajar é bom mas planejar também é melhor


Viajar é bom mas planejar também é melhor. Porque preparação pra viajar não é só pensar aonde ir, mas pensar o que levar. Nem coisa de mais, nem coisa de menos. Nem chique demais, nem simples de menos. Roupas práticas, confortáveis e lindas. Coisas que temos, coisas que sonhamos. Coisas que podemos comprar pra levar, coisas impossíveis pra bolsinhos comuns. Viajar é bom mas planejar também é melhor. Por que o biquini que planejamos, nem sempre não cabe no bolso como, as vezes, não cabe no corpo. Por que roupa de viagem, vestuário viajado, não é aquele que se usa, mas aquele que acontece, nos sonhos... Ah, com essa roupa, seria assim, seria assada. E tudo aconteceria.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Viajar é bom, mas planejar também é melhor

Viajar é bom, mas planejar também é melhor, por que a gente viaja, paradinha, pesquisando, pensando, sonhando... Já faz uma semana que TODOS os dias eu sonho que estou viajando, nessa já fui a Ouro Preto, Rio de Janeiro e Bahia, ah! Bahia... Viajar é bom, mas planejar também é melhor.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Pronto, Ana!

Nessas férias descobri que não faço mais parte da última geração que caminha sobre a Terra.

Cheguei a essa conclusão na megafesta conhecida por Planeta Atlântida. Na primeira noite de shows apresentaram-se no mesmo palco a banda de Florianópolis Dazaranha, o gaúcho melo-chapado Armandinho, o bivolt Lulu Santos, O Rappa, Babado Novo (isso mesmo, pasmem!), uma cansadinha Cidade Negra e um grupo de pagode que não fiquei para ver porque pagode de adolescente bacana às 3 e meia da madruga já é demais.

A questão é que, enquanto as meninas ao meu lado choravam e cantavam todas as músicas do dito Armandinho, eu sabia umas duas ou três... O que me salvou foi a quantidade de la-la-lás e uou-uou-uous nas letras do cara. Depois dele, foi a vez do Lulu Santos, que, para as criaturas da minha idade, só tem hits. Eu seria capaz de cantar todas as músicas daquele show, até de trás para frente. Já as mocinhas que choravam na apresentação anterior só conheciam aquela que tocava na Malhação e 'Como uma onda'. Apenas O Rappa nos ligava...

Dei risada ao pensar que, daqui a alguns anos, os Titãs, Lulu Santos, Paralamas do Sucesso e outros remanescentes da década de 80 talvez não toquem mais em festivais como esse, dominados por lindas meninas de 15 anos que preferem o ursinho de dormir do Armandinho aos bichos escrotos.

Pergunta

Ninguém mais bosta neste plog?

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

De viva voz a Gerardo Diego

Mas que vou dizer da Poesia? Que vou dizer dessas nuvens, desse céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da Poesia. Isso deixa-se aos críticos e professores. Mas nem tu nem eu nem nenhum poeta sabemos o que é a Poesia.
Aqui está: olha. Eu tenho o fogo em minhas mãos. Eu o entendo e trabalho com ele perfeitamente, mas não posso falar dele sem literatura. Eu compreendo todas as poéticas; poderia falar delas se não mudasse de opinião a cada cinco minutos. Não sei. Pode ser que algum dia eu goste muitíssimo da má poesia, como gosto (gostamos) hoje da má música com loucura. Queimarei o Partenão à noite, para começar a levantá-lo de manhã e não terminá-lo nunca.
Em minhas conferências, tenho falado às vezes da Poesia, mas da única coisa que não posso falar é da minha poesia. E não porque seja inconsciente do que faço. Ao contrário, se é verdade que sou poeta pela graça de Deus - ou do demônio -, também o é que o sou graças à técnica e ao esforço e de dar-me conta em absoluto do que é um poema.
Federico García Lorca

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Na repartição

E se eu não for trabalhar hoje? E se for, mas não fizer nada? E se fizer, mas mal-feito? Adianta? Quando chego bem cedo e percebo que o dia não vai ser bom, a semana não vai ser boa, a vida não vai ser boa, vou para um canto escuro de uma sala escura deste imenso prédio escuro e choro. Depois, seco os olhos, mas ficam resquícios. O que houve com seus olhos, dona? Estão vermelhos. Conjuntivite, doutor. Ei, isso pega! Pega, mas já está no fim. Amanhã, terei os olhos limpos e claros como água de rio. Talvez, a alma também, mas esta é mais difícil, porque não usa colírio.
E se eu resolvesse não viver hoje? Ficar acocorada em algum lugar, com a cabeça entre as pernas, bem quieta. Ei, dona, o que há? Nada, não responderia nada. Será que me deixariam? Ou chamariam um psiquiatra? Se eu ficasse calada, total silêncio, sem movimentos, sem levantar a cabeça; se eu me recusasse a responder. Eles se esqueceriam de mim, quem sabe? Então, eu saberia se a paz se encontra assim, de cócoras. Sou uma mulher grande. Não será fácil. Tenho medo de que resolvam levar-me. Para casa, para o hospital, para o hospício. Teriam de chamar dois homens, no mínimo. Sou pesada. Seria vexatório? Cômico? Deprimente? Acho que não tenho coragem de fazer isso. Deve ser o que nos diferencia dos loucos: a coragem.
Às vezes, passo horas tentando decifrar coisas sem a mínima importância prática. Certa função sintática de uma palavra em uma oração grande de um período ainda maior. Não sei para quê. Mas é divertido, ocupa a cabeça, pelo menos durante um certo tempo. Depois... bem, depois é outra história. Pode-se começar tudo de novo. Outra coisa interessante é ficar fuçando e descobrir a origem de um termo, suas transformações até a palavra atual. É bom. Ri-se bastante e se adia o acocoramento.
Não se deve ler muito, porém. Leitura faz mal à vista. Quando era pequena, gostava de ler à hora do almoço. Isso acaba com seus olhos, menina! Largue já esse livro, venha comer. Ah, mãe! Ei, menina, não leia com pouca luz, deixe esse livro aí. Ah, mãe! Sempre soube que leitura enfraquece os olhos, mas o que acabou me obrigando a usar óculos foi o computador. Talvez eu tenha lido pouco, mesmo. Escrever faz menos mal. Pelo menos, ninguém nunca me repreendeu por estar escrevendo. Talvez porque eu não escreva na frente dos outros. Tenho vergonha. Quero dizer, quando trabalhava no jornal, tinha de escrever na sala de redação, junto a todos os jornalistas. Mas nenhum se preocupa com o que o outro escreve e, além do mais, eram matérias para um periódico. Lê-se num dia e no outro já nem se lembra mais. Quando se escreve algo ruim, não há com o que se preocupar. Ninguém vai lembrar. Só quem escreveu.
De toda forma, trabalhar, ler, ouvir música e outras coisas são ótimas para evitar que se pense em ficar de cócoras para o resto da vida. Um bom exercício para não pensar. Principalmente o trabalho. Além de dignificante, é alienante, o que é muito bom, pois impede maus pensamentos. Há um ditado popular: "cabeça vazia, oficina do diabo". Por isso, sempre é bom ter muitas tarefas. Mas e se eu não as fizesse hoje?

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

10 dicas para o bom escritor


01) - Quando você não tiver o que fazer, não escreva. Só sairão bobagens. Escritor não é aquele que quer escrever, mas o que disso precisa.

02) - Não use a primeira pessoa com freqüência, a não ser que você seja o Machado de Assis.

03) - Não cometa poemas. Já existe quem defenda a queima de maus poetas em praça pública, numa fogueira feita com seus escritos (há um projeto tramitando no Congresso Nacional).

04) - O coração não faz poesia. Coração, quando está bem, bate; quando está mal, mata. Nunca, porém, ouviu-se falar de um coração que escrevesse.

05) - Trate bem as palavras. Ou as trate mal. Mas trate-as. Não conseguirá escrever sem elas.

06) - Domine muito bem a língua que pretende usar. O idioma também.

07) - Leia bastante. Se isso não ajudá-lo a escrever, ajudará a fazar análise literária.

08) - Escreva todos os dias, o máximo que puder. Quantidade não é qualidade, mas pelo menos você terá o que jogar fora.

09) - Não mostre seus escritos aos amigos. Eles não serão imparciais. Também não os mostre aos desafetos. Você vai dar esse gostinho a eles?

10) - Não ouça conselhos de quem não sabe escrever. Nem de quem sabe. Quem escreve não sabe dar conselhos; quem os dá não sabe escrever.

Boa sorte!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

lembrei de Raquelita


Trabalhar onde eu trabalho tem suas vantagens. Sempre se descobre algo legal meio que sem querer... Hoje, pesquisando sobre a escritora norte-americana Charlotte Gilman, acabei chegando a um centro de artes português. Tem um bocado de coisa boa por lá, inclusive outras obras do mesmo cara que pintou essa tela aí - Mapa de Pele - Gilberto Gaspar. Para quem quiser dar uma olhada: http://www.directoriodeartes.com/ e http://centrodeartes.blogs.com/

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

farofa






Domingo no parque. Frango, maionese, saladinha (pr'os menos selvagens) e farofa.

Cerveja e mais alguma coisa pra beber. Gente amiga, fotogênica (como podem perceber...) e tiradora de sarro. Presentes e criatividade. Assim se faz um típico amigo secreto.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

quintal de casa

quintal de casa

ando meio assim, sem bells, querendo que os dingles se explodam. fico pensando o q aconteceria se as renas cagassem lá do céu, estou certa q cairia na minha cabeça oca, à toa, à toa, ando assim...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006


O que tu querias estar fazendo agora? Ou, melhor, onde querias estar agora? Eu queria estar na praia. De preferência lá na Armação, mas poderia ser em qualquer uma. Maresias, Guarda, Saquarema, Ingleses, Rosa, qualquer uma. Poderia ser até em Guarapari.

Há mais de um mês, desde que comprei minha passagem para ir à Florianópolis, não penso em outra coisa. Acordada e dormindo. Tenho sonhado quase todos as noites com praia: eu na areia, eu no mar, eu surfando - até com isso, que infelizmente não faço, tenho sonhado.

Para piorar, ainda fico alimentando a tortura - que a contagem regressiva (faltam 16 dias) já me imprime - ao ouvir insistentemente um cd do Jack Johnson. Para quem não conhece, o cara é havaiano, é surfista e faz música de praia. Não sei como explicar isso, mas é mais ou menos assim: coloca o som do do cidadão para tocar, fecha o olho e fica achando que está na praia. Ou não, nem fecha o olho que não precisa... Eu, sem medo de ser feliz, até danço pela casa. O Luis e a Caetana, em diferentes graus, me acompanham na viagem.

Mas voltemos à praia. Eu adoro praia... Sabe, morar em Brasília me permitiu conhecer uns lugares lindos: Itiquira, Pirenópolis, Chapada dos Veadeiros - lugares com cachoeiras maravilhosas, visuais chapantes e sol - aquele sol de lascar do cerrado, mas nada (nada que eu tenha visto até agora, pelo menos) se compara ao mar. É um negócio de louco, aquela coisa que teus olhos não conseguem dar conta, aquele sal que fica impregnado na gente... Ai, que saudade.


Saudade de ficar dentro d'água até os dedos murcharem. Saudade de jogar taco na praia até anoitecer e depois cair no mar. Saudade de pegar jacaré e comer milho cozido com aquele temperinho arenoso... Saudade de ficar de bobeira, desenhar na areia e plantar bananeira com os guris da minha irmã.

Agora falta pouco, ainda bem.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Regulagem...

Deve ter acabado ainda há pouco a audiência pública realizada aqui em Brasília pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para discutir a resolução sobre as novas regras para a propaganda comercial de bebidas alcoólicas.

Pela proposta, as propagandas de bebidas como cervejas e vinhos não vão poder sugerir o consumo com cena, ilustração, áudio ou vídeo que apresente a ingestão do produto, nem associar o efeito do consumo a estereótipos de sucesso e integração social. Além disso, não vão poder usar recursos gráficos e audiovisuais do universo infanto-juvenil. Eu achava que isso já era proibido (lembram da Tartaruga da Brahma?), assim como o uso de modelos com menos de 25 anos. Não é não?

Também vai ser obrigatória a inserção de mensagens de advertência sobre a dependência decorrente do consumo de bebidas alcoólicas e sobre possíveis conseqüências desse consumo, como os acidentes de trânsito.

Achei engraçado descobrir que existem mais de 130 projetos de lei tramitando atualmente no Congresso Nacional que versam sobre esse tema. Alguns apresentados há mais de 11 anos. E agora vem a Anvisa embolar o meio de campo, interferindo no papel do Congresso, já que, de acordo com a Constituição Federal, somente deputados e senadores podem regular a propaganda por meio de lei.

Para ficar um pouco mais confusa, fui dar uma olhada no site do Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária). Me pareceu que os caras estão sendo ágeis e sérios nos seus 25 anos de atuação, julgando, absolvendo ou condenando mais de 4 mil casos processuais contra anúncios, a partir do Código Brasileiro de Auto-Regulamentação Publicitária. Espiando em “decisões e casos” no endereço http://www.conar.org.br você pode ter uma idéia do que eu falo.

Aí me perguntei: Para que então essa história? E não consegui responder. Lembrei da lei que restringe a propaganda - e o uso também - de cigarros e que está em vigor há quase 6 anos. Será que é tempo suficiente para vermos resultados? Queria ter encontrado algum estudo acerca disso, mas não (Se alguém encontrar, mande, por favor). Na prática, não conheci ninguém nesses 6 anos que tenha deixado de fumar por conta daquelas horrendas fotos que estampam os maços de cigarros.

Acredito que com as bebidas alcoólicas a coisa não seria diferente. E mais: me parece muito fácil limitar a publicidade de cerveja, por exemplo, levantando uma bela bandeira pela saúde pública, e deixar de lado problemas mais difíceis de resolver, como coibir realmente a venda de álcool a menores de idade. E do que adianta impor tantas restrições aos intervalos comerciais se, no caso da televisão, a 'porcariada' maior não está neles, e sim na programação das emissoras?

O mercado publicitário brasileiro é bom (Exceto o de Brasília. Aliás, alguém sabe quem é o responsável pelas ridículas campanhas do Big Box??); por que não deixam os caras se regularem em paz?

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Banzo


A Ilha é Mulher.

Sempre se soube que a Ilha é mulher, gênero bem feminino, espécie cheia de curvas, com seios e principalmente com ancas. Surpresa: dois umbigos: a Lagoa da Conceição e a Lagoa do Peri.

A Ilha é uma mulher bonita de dorso verde e dourado, costões sensuais, reentrâncias promissoras, praias abertas e coxas hospitaleiras, tem sexo híbrido - varonil como um promontório, abrigado como enseada de filme de pirata.

Vista do satélite, não passa de um pontinho reticulado a nordeste daquele rabinho da América, parecendo filhinha desgarrada da terra-mãe. De perto é como uma filha provocante. Electra e elétrica, luxúria pura, constante ameaça de um incesto ao sol.

O mar da Joaquina é agressivo, a praia é dócil e feminina como a mulher que lhe emprestou o nome. Mítica mulher solitária, mistura de Medusa e Iemanjá, que costumava passear pela praia nos fins de tarde, verão ou inverno, bela como uma princesa, triste como uma Julieta Capuletto, infeliz no amor. Mas, de qualquer maneira, fiel como as mulheres de Atenas.

O mar que banha Desterro é o mesmo que emocionou Melville e Hemingway e que os inspirou em Moby Dick e O Velho e o Mar. Mas o que enlaça a Ilha é ainda mais belo, faria ajoelhar-se diante de si poetas como Shelley, Miguel Torga ou Neruda, compositores como Beethoven, Mozart, Wagner - este, para os dias de ondas fortes, surfistas cavalgando pranchas. Além de Dorival Caymi, para o caso de ser doce morrer no mar.

Os açorianos construíram suas casas de costas para o mar, como se não desejassem mais vê-lo depois de desembarcados. O mar era seu escritório, devia lembrar trabalho duro. Assim, do trapiche da Praia do Muller era possível admirar-se a sucessão de galinheiros à beira-mar - espanta que não nascessem aves com escamas.

O mar. Aquela vítrea gelatina azul-esverdeada, crescendo como corcova de camelo aquático, escorregando com estrondo no tobogã de arrebentação, para desfazer-se na areia em mil esculturas de cristal líquido. Mar igual - ou parecido - é muito difícil de se encontrar neste planeta. Talvez, disse-me um velho navegador, nas Bahamas, no Hawai, no Thaiti ou no Sri Lanka, o antigo e lendário Ceilão.

A beleza da Ilha é imensa como uma marinha de Pancetti, mas um arrastão dos elementos pode torna-la de uma hora para outra selvagem e expressiva como um filme de David Lean.

O vento sul é um ilhéu típico, que fala com chiado e que, ao contrário dos magos de ocasião, consegue facilmente entortar árvores e encrespar oceanos. Foi conversando com esse ilhéu que Cruz e Souza empinou seu verso simbolista e achou raras onomatopéias para descrevê-lo:

Tu que penetras velhas portas,
Atravessando por frinchas...

E sopras, zargunchas, guinchas,

Nas ermas aldeias mortas.


Nada o detém quando ele bufa e escoiceia, no que há de ser a farra eólica do tempo. Ele se transforma então no vagabundo que rosna sonolento, leva longe o seu lamento, mas sua ferocidade é efêmera. E inócua. Se tanto, desmancha os cabelos da figueira, ou adianta o relógio da Catedral, que nesses dias perde a sua orgulhosa exatidão de Big-Bem.

Já tem 270 anos, mas parece que tudo começou dijaôji.

Sérgio da Costa Ramos

23 de março – aniversário da cidade – de 1995




quarta-feira, 29 de novembro de 2006

voltar


Já anoitecera quando desceu da árvore. Quarenta e dois passos apenas (ela havia contado muitas vezes) a separavam de casa, mas sabia que a mãe não iria gostar de vê-la chegando àquela hora. Sabia também que lhe pediria explicações - Por que fez o que fez? Explicações preparadas, entrou em casa. Desarmada que foi pela cena da mãe com a cabeça afundada entre os braços e os braços na mesa, só pode falar: Ele vai voltar, mãe. Não fica assim.

Mas a mãe não levantou a cabeça e nem parecia lhe ouvir. O pai havia ido embora e agora aquilo.

Ela achava (achava nada, tinha certeza) que estava fazendo a coisa certa. Não a toa passaria o dia inteiro planejando, combinando... instruindo o bicho. A idéia de que ele conseguiria trazer o pai de volta lhe parecia bastante razoável, louvável até. Imaginava o azulão bicando os ombros do pai e cantando sem parar em seus ouvidos. Era impossível que ele não reconhecesse seu pássaro, que não entendesse o recado e que não voltasse, comovido, a viver com a família. Para a menina, tudo era muito simples, inclusive a pequena viagem de algumas centenas de quilômetros que o azulão faria à procura do pai em outra cidade. Claro que o encontraria, claro.

Mas essas coisas, que lhe passaram num instante, ficaram só na sua cabeça, porque notou que a mãe não estava para conversa; não quis gastar saliva e ter de repetir tudo depois.

No dia seguinte, ao voltar da escola, não encontrou a mãe. Acreditou que ela pudesse estar na praça da cidade. E estava.

Parada em frente ao chafariz seco com a gaiola do azulão aos pés, a mãe cantava. Ninguém parado a olhava ou a ouvia, e ninguém mais a olharia ou a ouviria sem o canto melodioso do pássaro acompanhando sua música. Dinheiro então, quem daria?

Palpitando na cabeça da menina, uma pergunta: Será que serve se eu cantar com ela?

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Monstros do trânsito

Por ter acordado mais tarde do que costumo, hoje peguei trânsito intenso na rodovia que vai de Águas Claras a Brasília, chamada EPTG (sigla cujo significado desconheço). Precisava ver: um inferno. E olhe que há horários piores, disseram-me.

O(a)s motoristas têm pressa, muita pressa. Então, mesmo vendo que há filas quilométricas de carros, tentam avançar, mudam de pista, "costuram", enfim, desesperam-se e pioram o que já está ruim.

Eu vou, no limite permitido de velocidade, atenta a tudo e a todos. Se a pista permite 60 Km/h eu vou a 60 Km/h. Se é 80, 80. Sempre com um olho no velocímetro, um na pista, um no retrovisor, um em cada espelho lateral, outro nos carros dos lados. Sou um bicho todo olhos.

Invariavelmente, vem alguém atrás forçando a passagem. Ignoro. Impassível, continuo na velocidade permitida. Aí, o(a) afoito(a) me ultrapassa, dando-me alívio temporário, já que, indefectivelmente, virá outro(a) com o mesmo comportamento.

Assim, mesmo com o fluxo intenso, comecei a divagar – mobilidade urbana, transporte individual e coletivo, essas coisas. Aqui em Brasília, já elegi meu inimigo: os furgões de transporte alternativo, as chamadas "vans" ou "lotações".

Os motoristas desses veículos são terrivelmente ousados e irresponsáveis: excedem todos os limites de velocidade, "cortam" e "fecham" os outros carros, fazem curvas em altíssima velocidade e sem nenhuma segurança, enfim, abusam.

Junto a eles, há os ônibus das empresas convencionais. Também muito atrevidos, seus motoristas entram na pista quando bem entendem, pressionam para ultrapassar e disputam espaço com os furgões alternativos. Então, meus inimigos estão no transporte coletivo.
Na via que utilizo há quatro pistas. Três delas são, infalivelmente, ocupadas por carros de passeio. A quarta, obviamente a última da direita (devido às paragens), por ônibus e furgões. Então, é sobre os veículos que estão na penúltima à direita que eles avançam para ultrapassar. Estes, por sua vez, deslocam-se para a próxima, e assim sucessivamente, causando os transtornos e solicitando toda a atenção de condutore(a)s cuidados(a)s e correto(a)s como eu.

São três pistas para veículos individuais e uma para transporte coletivo. Três quartos do espaço ocupados por carrinhos que levam uma, duas pessoas. Apenas um quarto ocupado por viaturas carregando 40, 50, 60 usuários... Pensei numa situação contrária. Imagine quanta gente mais poderia ser transportada.

Então, vejamos o raciocínio: há só uma pista para o transporte coletivo, que ocupa apenas um quarto do espaço das vias, mas ele é o inimigo?
“A conclusão: o que atrapalha o trânsito – e, por conseguinte, o funcionamento de toda a sociedade – são os pobres e suas absurdas necessidades.

É para transportar os pobres que existem esses monstruosos carros: enormes, cheios, acossando-nos nas pistas, impondo-se sobre nós, motoristas indefesos em nossos carrinhos. Há até uma injusta lei de trânsito dando-lhes prioridade sobre veículos individuais.

Por que cargas d’água esses pobres apinham-se em ônibus, furgões, lotações, “vans” ou o que quer que seja, no mesmo horário em que nós, membros da classe média, que constrói o progresso, levando o país nas costas, temos de sair para o trabalho, a escola, a vida?

Essa absurda necessidade que eles têm de se mover impede o andamento do trânsito. Sem esses ônibus e furgões repletos de trabalhadores, com seus motoristas irresponsáveis, imagine a fluidez do trânsito. Seria uma beleza, uma maravilha.

Mais coisas impedem a tranqüilidade no trânsito. Uma delas é essa incompreensível necessidade que estudantes, crianças, adolescentes e jovens têm de exercer sua capacidade de se movimentar! Outra é a inaceitável necessidade que os velhos têm de sair de casa, sabe-se lá para que! E a inconcebível necessidade que os deficientes físicos possuem de se locomover? Sem comentários.

Por conta desses cidadãos, o poder público é obrigado a nos submeter a faixas, semáforos, limites de velocidade e outros fatores que cerceiam nosso direito de correr desenfreadamente pelas vias – temos compromisso, horários, trabalho!

E o que dizer de moto-entregadores e taxistas? Gente insuportável, que atrapalha todo o trânsito. Eles só deviam existir quando temos vontade de comer uma pizza, necessidade urgente de entregar um documento ou pressa de chegar a aeroportos.”

Esse é o pensamento da boa classe mediazinha de merda que sou; xingo o motorista do ônibus, enraiveço-me contra as lotações, rogo pragas a motoqueiros e taxistas, gente que está trabalhando.

Percebo de que ser atenciosa, cuidadosa e correta no trânsito não me exime de ser uma monstra. Monstros do trânsito somos nós, que queremos nosso carrinho individual a qualquer preço, não respeitamos o trânsito, não lutamos por um transporte coletivo de qualidade, digno, capaz de atender às necessidades da população.

Monstros do trânsito somos nós, da classe média – mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa –, que preferimos inchar as cidades com nossos coloridos carrinhos, poluindo, impedindo a mobilidade alheia, em nome da nossa pressa, do nosso conforto e do nosso egoísmo. E ainda achamos que os que trabalham no trânsito são os vilões.

Monstros do trânsito somos nós que não lutamos para que haja mais ônibus, mais metrôs, mais trens, mais seja lá o que for que não somente atenda a alguns privilegiados que estudam em escolas particulares e trabalham em gabinetes com ar-condicionado, mas seja capaz de dar condições dignas de locomoção aos que precisam se locomover – e esses são todos os cidadãos.

E seremos cada vez mais monstros enquanto continuarmos neste nosso mundinho egoísta, fechadinho, que faz cara de nojo a quem anda a pé pelas ruas e não vê essas pessoas como cidadãos. Enquanto adorarmos nosso sagrado veículo individual sobre todas as coisas. É duro, mas é vero.

Quanto ao meu recém-adquirido carrinho popular zero quilômetro branquinho veloz e confortável, gosto tanto do bichinho...

quarta-feira, 22 de novembro de 2006















...é incrível como nossa curiosidade, necessidade de conhecer, compreender e, às vezes, vontade de melhorar nos leva a fazer coisas inimagináveis e a buscar dominar terrenos até então inexistentes. Estou gostando muito da academia! Estou adorando estudar sobre alimentação, engordar, anorexia, e coisas e tal. Algo tão cotidiano, alimentar-se.Coisa tão estranha,
comer...

Hoje

Hoje estou decidida, vou contar tudo sobre mim.
Uso águas de colônia baratas e cervejas caras. Tenho um par de sapatos modernos, de prata azulada, que calço para ir ao mercado todos os dias e à Lua quando dá tempo.
Odeio fícus podados – coitados, tenho dó. Acho árvore mais bonito do que flor. As de Campo Grande são lindas, copadas, cheias, verdinhas. Algumas regiões da cidade, vistas do alto (mas não muito), assemelham-se à imagem que as crianças fazem das nuvens. Parecem chumaços de algodão verde. Tenho a impressão de que se pode sair pulando sobre as elas. Disso me veio a idéia de elaborar um livro infantil, já publicado, mas nunca escrito.
As melhores coisas de Campo Grande são suas árvores e minhas mãos. Tenho unhas ridículas: minúsculas e arrebitadas, que mantenho curtas e lixadas, mas sonho em ter enormes e vermelhas. Quando você me vir na rua, será impossível que eu não o reconheça.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

E por falar em cruzar...

Já que o assunto é cruzamento, trago para nosso quintal uma outra perspectiva do assunto. Menos sexual, com certeza, o que provavelmente espantará todos. Convido, então, Alice Ruiz...

Se
se por acaso

a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra
eu ia tirar de ouvido

todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso

ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...

Verídico ou não, lá vai

Cartilha Contra a Libertinagem Sexual da Igreja Universal do Reino de Deus


Posição de quatro
É uma das posições mais humilhantes para a mulher, pois ela fica prostrada como um animal enquanto seu parceiro ajoelhado a penetra. Animais são seres que não possuem espírito, então o homem que faz o cachorrinho com sua parceira, fica com sua alma amaldiçoada e fétida.

Opa! Reparem que é o homem que terá sua alma amaldiçoada. Mulherada, relax!!


Sexo Oral
O prazer de levar um órgão sexual a boca é condenado pelas leis divinas. A boca foi feita para falar e ingerir alimentos e a língua para apreciar os sabores. A mulher engolindo o sêmen não vai ter filhos. E o homem somente sentirá dores musculares na língua ao sugar a vagina de sua parceira.

Opa de novo! Como é que essa história de que engolir sêmen serve de método anticoncepcional ainda não foi amplamente divulgada?? Pô, tô gastando 30 pilas por mês a toa?!
Outra coisinha: os caras não sacam nada da anatomia humana, né? Não sabem que a língua é o músculo mais potente do nosso corpo? Pro cidadão ficar com dor na língua tem que passar, no mínimo, 48 horas chupando.


Sexo Anal (Sodomia)
O ânus é sujo, fétido e possui em suas paredes milhões de bactérias. É o esgoto propriamente dito. No esgoto só existe ratos, baratas e mendigos. A pessoa que sodomisa ou é sodomisada ela se iguala a um rato pestilento. Seu espírito permanece imundo e amaldiçoado. Mas o pior é quando o ato é homossexual, pois o passaporte dessa infeliz criatura já está carimbado nos confins do inferno.

Ôôôôôôô! Ratos, baratas e mendigos?! Que imaginação que esses caras têm, hein? Mó pervertidos! Nunca vi disso... nem em filme pornô.


Vejam a maneira certa de se relacionar sexualmente com sua parceira, segundo a cartilha:

Posição Recomendada
O homem e a mulher devem lavar suas partes com 1 litro de água corrente misturado com uma colher de vinagre e outra de sal grosso. Após isso, a mulher deve abrir as pernas e esperar o membro enrijecido do seu parceiro para iniciar a penetração. O homem após penetrar a mulher, não deve encostar seu peito nos seios dela, deve manter uma distância pois a fêmea deve estar orando aos santos para que seu óvulo esteja sadio ao encontrar o espermatozóide. Depois do ato sexual, os dois devem orar, pedindo perdão pelo prazer proibido do orgasmo. Como penitência... o açoite com vara de bambu é aceito em forma de purificação.


Ok! Agora, ao invés de levar uma camisinha na bolsa ou na carteira, andaremos com uma 'lancheira' recheada de 1 litro de água, vinagre e sal grosso – afinal, nunca se sabe quando pode rolar uma oração por aí com alguém...
Mas que a perversão come solta nessa cartilha, ninguém pode negar: primeiro foram os bichos escrotos e os mendigos; e dessa vez é a vara de bambu! Tô dizendo... ainda temos muito o que aprender com esse povo da igreja.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Pra dar risada



Essas e outras tiras estão em http://ubbibr.fotolog.com/liniers_macanudo/
Quase todo dia tem uma nova. Vale a pena.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Sexta é dia de


Recebi, há alguns meses, um e-mail com essa e outras imagens que representam 'ao pé da letra' expressões idiomáticas reveladoras da inteligência e do humor brasileiros. Agora descobri que elas fazem parte do livro Pequeno Dicionário Ilustrado de Expressões Idiomáticas (editora DBA, 2004), dos fotógrafos Everton Ballardin e Marcelo Zocchio, e estiveram expostas numa mostra em Salvador. Será que passou por Brasília e eu não fiquei sabendo??
Outro que já brincou com os ditos populares foi Mario Prata, em Mas será o Benedito? (Globo, 1996), livro no qual o escritor faz uma análise muito bem humorada e sem qualquer rigor histórico de mais de 400 provérbios e expressões do nosso país. Dêem uma olhada no verbete que dá nome ao livro:

mas será o Benedito?

SIGNIFICATIVO:

Expressão de espanto diante de determinada situação.

HISTÓRICO:

Era uma vez dois compadres do interior. Benedito, casado com Rosinha, e Oswaldo, solteiro. Oswaldo vivia de olho em Rosinha. Um dia Benedito foi viajar para a cidade. Toca o Oswaldo a cantar a Rosinha, na casa dela. Depois de muito assédio e sedução, Rosinha concorda, mas resolve tomar um banho antes, porque está um calor danado. Oswaldo vai para o quarto do casal e fica completamente nu. Nisso, Benedito volta. Oswaldo ouve barulho na sala e pensa: "Mas será o Benedito?" Era. Benedito entra no quarto, vê o compadre completamente nu e pergunta:

- Mas, cumpadre, o que qui ocê tá fazeno na minha cama, cumpadre?

- Sabe o que é, Benedito? Tava lá em casa, sozinho, acabrunhado, sem saber o que fazer, esse calorão danado, pensei: vou lá na casa do Benedito dá o cu pra ele.



Mas o "molhar o biscoito" aí de cima, eu não encontrei... Se alguém souber a explicação científia ou a origem histórica da expressão, por favor, conte!

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

A apresentação que não foi feita

Mariana Cíntia de Los Rincones: Uma quase-balzaquiana. Mineira. Psicóloga. Quando bebe, no lugar da coluna vertebral coloca uma vara de pescar – enverga, mas não quebra. Foi batizada com esse simpático nome após uma participação especial numa pseudo-virtual-novela chicana.

Jaana
: A cearense mais branquela do planeta. Faz mestrado e especialização e ainda encontra tempo para dar seus gritinhos nos ouvidos castigados dos amigos. Não sabe diferenciar maconha de Gudan Garan.

Cae: Nossa goiana já foi oboísta (“obo o que??” Não me perguntem! Corram até o dicionário e enriqueçam seu palavrório). Quem a vê no trabalho, jura que ela é séria – o que não contradigo para não sofrer represálias em casa (vá que ela não me deixe mais comer granola...).

Esperando Godot
: Naturalmente brasiliense. Dança, canta, representa, toca pandeiro, assovia e chupa cana. Não necessariamente nessa ordem. Não sei porquê foi estudar na Unicamp, mas já se deu conta da bobagem e agora está na UnB.

Ana Silva: A mulher da terra da mandioca. Jornalista, militante política e amante de Chico Buarque. Acho que não deveria contar que ela está pagando pena alternativa por crime eleitoral, não é? Fora isso, posso garantir que ela é do bem. Preguiçosa, mas do bem.

Valéria: Mais nova vó da paróquia (o Miguel que se prepare!). Uma quase-brasiliense, quase-louca, quase-tudo. Já morou em Florianópolis e sobreviveu à maresia e ao mofo com grande bravura. Como seqüela, ficaram apenas algumas bolhas dentro da cabeça.

Lídia
: Essa que vos escreve, finalmente, depois de três meses. Manezinha da Ilha no Planalto Central há um ano e meio. Roedora compulsiva de unhas. Muitos dizem que sou grossa, mas na verdade sou um poço de ternura.

Não creio

Caralhoooooooooooo! Consegui entrar!!

(Será que é verdade?!)


Agora que tô aqui, vamos às reivindicações: Quintal improdutivo não dá! Ou todo mundo começa a plantar suas palavras por aqui ou o MSB (Movimento dos Sem Blog) vai tomar conta dessa terrinha.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Saudade da Filosofia

Álvaro de Campos
Ah, Perante
Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?

Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

sábado, 14 de outubro de 2006

Cuidem do jardim enquanto isso...

Olá, queridas meninas jardineiras!

Às vezes, é preciso sair do quintal. No meu caso, diria que é necessário, pois é chamado de um tal Gaitero que não só trouxe música como também adubo. Então, aqui vou eu... Cultivar flores em outros espaços!

segunda-feira, 9 de outubro de 2006






Pois é... pelo sim pelo não... antes o menos pior!


Sou contra vender o Brasil, simplesmente.