Janeiro em Soterópolis. Do ônibus que atravessa a Orla da cidade, avisto duas dezenas de outdoors anunciando o verão: “Ensaio da Banda AEIOU”, “Camarote da Grande Estrela do Carnaval”, “Feijoada VIP da Baiana-Cheia-de-Graça”. Um deles desafia: “O seu verão acaba com o carnaval?”. Próxima parada. Sob o sol escaldante de 8:00 da manhã, algumas pessoas tentam se proteger na sombra de um poste, formando um ângulo de 45º. Esperam o famoso “buzú” ou “humilhante” para mais um dia de trabalho. Lembro da reportagem da TV: o baiano é um povo muito alegre. Ah! Este sol, este mar! Com uma vista dessa, não tem como ficar mal-humorado...
Uma mulata vistosa, de 1,60 de altura, cintura fina, quadris largos, bunda grande e pouca roupa, adentra o coletivo. Ao meu lado, dois homens, um jovem negro e o outro branco de meia idade, curvam o pescoço examinando todos os detalhes. Ouço a conversa: - “Posso te arrumar uma deste jeito aí”. Diz o jovem ao homem, que, de boca aberta e olhos arregalados, apenas balança a cabeça. Os dólares dos gringos movimentam a economia da cidade no verão. Eles vêm em busca do Sol, da Alegria, e também de Mulheres, Mulherinhas que mal saíram da infância. Alguma novidade? Acontece todos os anos. Quase não dá nos jornais. A grande notícia do dia é a polêmica sobre a escolha do Rei Momo. Muito magro! É marmelada!
Enfim chego ao meu destino, desço do coletivo e sigo em direção ao Porto da Barra. Encontro amigos. Praia lotada. Banho de mar delicioso. Na areia, disputamos espaço com cadeiras de praia, vendedores ambulantes, jogadores de frescobol, celebridades e catadores de latinha. Peço cerveja a um rapaz que recolhe cadeiras para alugar. Ele solta um riso nervoso e responde: - “Não vendo cerveja, moça. Sou burro de carga. Onde tem trabalho pesado, eu estou”. Penso no mito da preguiça baiana. Lanço a mim mesma o desafio do outdoor: o verão deste rapaz termina com o carnaval? Não sei responder. Neste ano, ninguém quis ser cordeiro*.
* São chamados de “cordeiros” os homens e mulheres que recebem R$ 20 por dia para empurrar as grandes cordas que separam os foliões de Blocos dos outros foliões (“pipoca”), no carnaval de Salvador.
Uma mulata vistosa, de 1,60 de altura, cintura fina, quadris largos, bunda grande e pouca roupa, adentra o coletivo. Ao meu lado, dois homens, um jovem negro e o outro branco de meia idade, curvam o pescoço examinando todos os detalhes. Ouço a conversa: - “Posso te arrumar uma deste jeito aí”. Diz o jovem ao homem, que, de boca aberta e olhos arregalados, apenas balança a cabeça. Os dólares dos gringos movimentam a economia da cidade no verão. Eles vêm em busca do Sol, da Alegria, e também de Mulheres, Mulherinhas que mal saíram da infância. Alguma novidade? Acontece todos os anos. Quase não dá nos jornais. A grande notícia do dia é a polêmica sobre a escolha do Rei Momo. Muito magro! É marmelada!
Enfim chego ao meu destino, desço do coletivo e sigo em direção ao Porto da Barra. Encontro amigos. Praia lotada. Banho de mar delicioso. Na areia, disputamos espaço com cadeiras de praia, vendedores ambulantes, jogadores de frescobol, celebridades e catadores de latinha. Peço cerveja a um rapaz que recolhe cadeiras para alugar. Ele solta um riso nervoso e responde: - “Não vendo cerveja, moça. Sou burro de carga. Onde tem trabalho pesado, eu estou”. Penso no mito da preguiça baiana. Lanço a mim mesma o desafio do outdoor: o verão deste rapaz termina com o carnaval? Não sei responder. Neste ano, ninguém quis ser cordeiro*.
* São chamados de “cordeiros” os homens e mulheres que recebem R$ 20 por dia para empurrar as grandes cordas que separam os foliões de Blocos dos outros foliões (“pipoca”), no carnaval de Salvador.