sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Painel de controle

Dar o boot inicial
Desfazer das concepções caducas
Limpar e desfragmentar o disco
Scanear a memória a procura de phishing
Deletar arquivos que não fazem mais sentido
Liberar espaço
Derrubar o firewall
Configurar novos aplicativos
Exibir logs de eventos
Upload das relações
Donwload de novas perspectivas
Reiniciar
Re-startar a vida

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

a caminho

O polícia faz o sinal. Eita, o que ele quer a esta hora da noite? Affe, é polícia mineira! Hum, essa mania de deixar tudo pra depois! Fez tudo menos a barba! Ele viu foi tua barba. Nada a ver! Documentos do carro? Sim, senhor. O policial coça o queixo, vai pra trás do carro, olha e volta. Seu carro é de Brasília? Sim, senhor, como consta no documento. Mas as iniciais da placa não são! É verdade, o carro veio de fora, mas acabei de licenciar e vistoriar. Com o Detran em greve? Caraca, odeio puliça! Isso, em operação tartaruga, quatro dias de fila. Você tem o documento antigo? Quer coisa pior do que intimidade - me chame de senhor, ora!
Quem precisa andar com documento antigo? Mas o cara saiu do carro, abriu o portamalas, tirou tralha de acampamento, brinquedos, malas de roupas, matula de lanches, tudo pro acostamento. No banco de trás o bebê dá sinais de vida, fazendo caretas. A criança, de joelhos no banco acompanha tudo com olhares e perguntas. Mãe, a gente é bandido? Não filha, é só a barba do seu pai, que parece de bandido. O guarda leva os dois documentos pra cabine. Ta tudo certo? Por que não nos liberou? Polícia Mineira. É sua barba. Que nada, você que implica! Vou continuar brincando de Tetrix paara por tudo de volta. Quer alguma coisa das malas? Uma fralda. O bebê já faz cara de torção, beicinho, ensaia uma demanda!
Volta o guarda, cara de satisfação. Explica: nosso chefe manda emplacar todos os seus carros com as iniciais dele, que são essas. Conferimos, não é carro roubado. Você tem a habilitação? Claro! Aqui.
As crianças reclamam. Muito tempo parados, já começam a pedição. A habilitação está vencida. Qué isso, seu guarda? Vou pegar esse cara! Seguem os homens pra cabine. Decido: não vou dar de mamar pro bebê, quando ele começar a chorar, você leva ele lá dentro da cabine. Fica segurando, eu não vou pegar no colo, tah? Vou ver o que posso fazer pra sair daqui.
Seu Guarda, estou com duas crianças dentro do carro... A habilitação está vencida. Desde quando? De julho. Seu guarda, o pai estava tão envolvido que não teve tempo nem de fazer xixi. Se quiser fazer xixi o banheiro é ali. Vou pegar de porrada e morder a orelha dele! É hoje que eu entro pra lista de cannibal Killers!
Não se trata disso. O que podemos fazer para seguir? Os guardas se entreolham. Vamos ter que apreender o veículo. O que?! E nós ficamos aqui? E, as crianças? Calma.
Eu posso ir dirigindo. Você tem habilitação? Senhora, por favor. Não estou chamando-o de você. Quero cravar meus dentes na jugular do cara. Qual sua profissão? É agora, bato a cabeça dele no vidro e arranco-lhe as calças pelo pescoço!
Vem a menina com o bebê no colo. Quero fazer xixi. Aqui não! Não tem banheiro de meninas. O bebê estende os braços. Então, vou poder sair dirigindo? Vocês estão indo para onde? Pro sul. A senhora vai dirigir todo o tempo? Sim, adoro dirigir. Deixe eu ver sua habilitação. A senhora dirige há quanto tempo? Vou, definitivamente, pegar o cara, fazer suco dele! Desde que tirei a carteira que está na sua mão.
Ih! As chaves do carro da minha mãe! Eu trouxe a chave do carro da minha mãe! Caraca, tem um telefone? Vou ligar a cobrar e avisar para ela! Ela deve ter uma sobressalente. Claro, no meio das tralhas que ela coleciona há 50 anos! Não vai saber onde está. Ligo, aviso, ela diz para eu ficar tranqüila, não pretende sair de casa. Por que o bebê está chorando, onde vocês estão? Não explico agora. No caminho. Vou trocar o bebê. Dá licença, posso trocar o bebê na sua mesa?
O guarda nos libera. Vou avisar no sistema, hein? A rodoviária vai parar se ele estiver dirigindo e não terá mais jeito, carro detido! Odeio sistemas, quero explodir o sistema! Abaixo o sistema decimal, o binário,o capitalista, o nervoso e o digestivo!
No carro: foi a barba. Nada, puliça mineira. Amanhã você faz essa barba! Depois que a gente tiver mandado a chave da sua mãe.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Isabel Allende

Há alguns escritores cujas obras tu adoras, mas quando os ouves falar, a simpatia diminui sensivelmente? Comigo já aconteceu. Adélia Prado é um exemplo. Eita mulher chata!

Com Isabel Allende foi o contrário - se já gostava do que ela escreve, agora tenho certeza de que bons livros não precisam ser feitos por gente enfadonha e podem - sim - vender muito. Isabel é boa de papo que só. Pude conferir isso na Flip desse ano, que terminou ontem. A chilena tem uma virtude que admiro - a capacidade de fazer piada de si mesma. Em certo momento, Humberto Werneck, que conduzia a conversa, perguntou a ela se algum erro já havia passado despercebido e fora publicado em algum de seus livros: "Sim, sim. Um personagem, que perdeu uma perna em um livro, reapareceu com as duas pernas na obra seguinte. Realmente esqueci que eu tinha lhe cortado uma perna. Um crítico na Espanha disse que era o 'realismo mágico'".

Entre outras coisas, falou sobre o trabalho do escritor, dizendo que não há como ser um apenas escrevendo por hobby. "Certa vez, já depois de ter publicado alguns livros, estava em uma festa e um senhor puxou conversa comigo: 'O que você faz?', 'Sou escritora', 'E o que você escreve?', 'Romances', 'Ah, quando eu me aposentar, vou escrever romances', 'E o senhor? O que faz?', 'Sou dentista', 'Ah, quando eu me aposentar, vou arrancar dentes'. Escrever não é arrancar dentes. Escrever é uma paixão".

E para quem quiser ouvir algo mais sobre paixão, recomendo assistir isso aqui: http://www.ted.com/talks/lang/por_br/isabel_allende_tells_tales_of_passion.html

sexta-feira, 30 de julho de 2010

perspectivas pro findesemana a várias mões (Valéria , Lídia e Carla)

Casais celebrando uniões;
amigos queridos enchendo aviões;
armários repletos de falta de organizações;
filmes e culinárias de glutões;
casas para passeios, sem colchões;

contagem regressiva para depósito dos patrões.

casais repletos de organizações
amigos enchendo colchões
filmes celebrando aviões

contagem regressiva para passeios com glutões


filme 'filosofando' uniões
casas sem patrões
amigos nas organizações

contagem regressiva para casais nos colchões

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Adjunto(s) Adnominal(is) (?!)

A Leveza da Lidia.
A Alegria da Tiça.
A Altiveza da Pat.
A Coragem da Dani.
A Lealdade de Camila.
A Bondade da Monia.
O Amor de Kátia.
A Cumplicidade de Dayvison.
A Douçura da Drica.
A Companhia da Naná.
A Compaixão de Carmilva.
A Justiça do Armando.
A Franqueza do meu Pai.
A Simpatia de minha Mãe.
A Acidez do Marco.
A Musicalidade da Raquel.
A Transparência do Luís.
A Volúpia da Val.
A Eloquência da Ana.
A Lucidez da Piti.
A Espontaneidade do Lúcio.
A Determinação da Jaana.
A Poesia da Caetana.
A Elegância do Felipe.
A Simplicidade da Silvia.
A Organização da Bianca.
O Romantismo da Mari.
A Serenidade da Milena.
A Criatividade da Mi Fabri.
A Revolução da Raq.
A minha Perseverança.
E as Incertezas de Todos.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

SINA


Desde pequena ela sabia que não ia ficar ali para sempre. Ao ver a mãe agachada na beira do rio, lavando roupa e o pai, bêbado, chumbado da lida na roça - pensava que tinha nascido no século errado, no meio errado - gente grossa, grudada na terra - dizia. O estudo seria sua saída, pensava - não seria escrava. A marca que trazia do acidente com óleo quente na pele lhe informava que ela era uma sobrevivente, uma forte que não seria pega facilmente, poderia seguir até onde quisesse chegar. Quando embarcou para Brasília, com a promessa de um emprego no banco onde os amigos tinham passado num concurso, achou que não ia mais atravessar o rio verde de volta. Realmente, só o fez para enterrar os pais. Na cidade moderna promoveu-se à semi-escrava entre máquinas elétricas. Os salários, insuficientes, a obrigavam a morar em troca dos serviços - que fazia como se estivesse brincando de casinha - nas casas dos outros. De dia, trabalhos com contabilidade (sabia contar bem, crescera contando o tempo de ir-se embora, contando os trocados miúdos economizados para pagar sua alforria da família). De noite cursos, livros e uma cachacinha para aplacar a fome. Foi na faculdade de direito que conheceu o pai do primeiro filho. Professor seduzente, cuja acusação de prostituta não amoleceu o juiz, quando o menino já era mais do que a cara do pai. Difícil negar um DNA,o processo longo serviu para o menino resolver não ser daquela laia. Abandonou Brasília para não ter que abandonar o filho a quem dava tudo o que tinha e mais o que podia buscar com o olhar. O pai do segundo filho a encontrou operária de uma facção, costurando incansavelmente para montar o pequeno capital do seu primeiro negócio próprio. Àquele motorista de caminhão, sem educação, sem jeito para o trato social, nunca precisou pedir pensão, nem ajuda. Ele comparecia todos os meses com quantia suficiente para a comida, a roupa e uns mimos – mesmo ciente que ela crescia nos negócios e, já patroa, fazia até fortuna. Nada fino, era um nobre. Um dia, avisou que não viria mais para os carinhos que a aliviavam da labuta – tinha encontrado o amor de sua vida e estava resolvido a dedicar-se. Ela aceitou. Nunca encontrou seu amor, mas não se negara aos encontros casuais para o sexo. Na beira da cama, recordava-se de tudo isso em flashes preto e branco. Em slow-motion, via-se nos braços do cara da noite passada, no forró, entrando em casa, fazendo amor bruto. Na cômoda o dinheiro deixado por ele, provavelmente antes mesmo do dia amanhecer. Com esse gesto, insinuava o mesmo que o outro a chamara na frente do juiz. Suspirou, levantou-se, penteou-se, maquiou-se, vestiu-se de crepe de seda, abotoou o colar de pérolas em volta do pescoço, vestiu o diamante no dedo anelar, calçou o salto de pelica e saiu, decidida a distribuir uns trocados para os meninos da feira.

terça-feira, 27 de julho de 2010

noite passada


sonhei com chuva
água no lombo
camisa molhada
barulho no telhado
cabelo escorrendo
pé na lama
lágrimas do céu

segunda-feira, 26 de julho de 2010

a pública não é privada!

Ainda reluto em concordar que a escola privada é melhor do que a pública. acredito que os resultados do ENEM, por exemplo, mostram apenas que os instrumentos de avaliação continuam favorecendo a elite no Brasil. Aquelas escolas de elite que não atendem nas áreas rurais, que não atendem deficientes mentais, nem cegos, nem surdos, nem mudos, nem índios, nem pobres, nem indisciplinados, é a melhor? Aquela escola capitalista que cobra valores que garantam o "lucro do patrão", e pagam o salário de mercado para seus trabalhadores, e selecionam por testes - ou seja, só quem sabe é que entra, é a melhor? A pública vai perder sempre nessa disputa por medalha de elite. Exceto as federais, que aliás, selecionam alunos, recebem mais do que o aluno-ano que as estaduais e as municipais recebem, têm carreira de professor universitário e de servidor de universidade para seus trabalhadores. Os resultados mostram, claramente que isso faz diferença. O Enem é um indicador de que os investimentos em educação continuam favorecendo quem já tem, e ocultando as necessidades daqueles alunos que não têm ginásio coberto, laboratórios equipados funcionando com orientadores capacitados, de professores que trabalham além das horas para dar conta de sala de aula e gestão - além da própria formação, de todos os que não têm transporte público passando nem por perto da escola - ou que têm, mas tão absurdamente indignos de cidadania, que não têm cidadania. A escola pública tem que dar conta de tudo isso: currículo, cidadania, educação para o que ainda nem existe. Tenho dó, pena mesmo, da senhora mendicativa escola pública, que nunca srá reconhecida pela sua generosidade, pelo seu trabalho exaustivo, pelo tanto que faz- por mais que faça!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

tatoo do mal!


Enquanto eu penso se faço ou não uma tatuagem, Israel decide libertar mil palestinos em troca de um israelense; o governo federal manda alguns milhões para recuperar cidades devastadas pela inundação no nordeste; a CBF despede o Dunga; o Palmeiras contrata o Felipão; Lou Reed decide não vir mais pra Parati, no FLIP. Mas onde, me pergunto? No Rio de Janeiro mais um menino atingido por bala perdida em sala de aula; no trânsito o que corresponde a um avião de gente morre por acidente; um navio turco de ajuda à Gaza atraca no Egito, uma bomba explode numa mesquita no Irã, jorra óleo em consequência do vazamento de um poço no pacífico, no maior desastre ecológico registrado neste século. E qual seria o motivo? Uma mulher morta por exigir pensão ao famoso goleiro; um cara assassina a mãe porque ela pediu para abaixar o som da tevê e concreta o corpo na parede; alguém compra uma jobulani por 74 milhões de dólares para sua coleção de bolas da copa; um padre é suspenso por pedofilia.
Disco o número do cartão.
- Panda, decidi. Hoje mesmo, pode ser? No ombro esquerdo. Um coração bem fofinho, tipo pêssego maduro, com uma faixa no estilo old school e um punhal cravado com sanguinho na ponta. Dizeres? Ah, sim, você pode escrever: MUNDO CRUEL.

terça-feira, 13 de julho de 2010

vem e vai

Ela vem e enche o ambiente de charme. Me conta das coisas que faz e das que não faz "não tenho feito muito ultimamente". Faz cada coisa interessante! Movimenta o partido, redige, revisa, alimenta o site, olha pela janela e considera o mundo, salva a própria vida nas torrentes que sangram pedras. Com a família tem sempre um papo, um carinho trocado, umplano a ser colocado em prática. Conhece gente diferente, fala abertamente com estranhos, conhece seus lugares e reconhece seus sotaques. com ela rola paquera, transa, gente na internet, postais. Sorri redondo com todos os dentes, sincera, gostosa. Sempre um algo a mais para eu pensar, para procurar. Sempre uma canção cantada, comentada, lembrada, uma piada, uma anedota popular. Depois me diz que falta, que não é aquilo que ela queria, que não tava bom... queria mais, queria melhor. É assim que se faz, mais e melhor. Aí se vai, deixando em mim a vontade de um dia ser assim, grandiosa.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Ainda

Ainda não fui à Índia. Ainda não sentei à mesa com os deuses do Olimpo. Ainda não fumei baseado. Ainda não fiz doutorado. Ainda não fiz sexo grupal. Ainda não li a bula papal. Ainda não fui ao Maracanã. Ainda não vi Chico e Caetano ao vivo. Ainda não vi o Carnaval nas arquibancadas da Sapucaí. Ainda não hablo espanhol. Ainda não aprendi árabe. Ainda não voei de asa delta. Ainda não pulei de pára-quedas. Ainda não li Memórias do Cárcere. Ainda não fui à Foz do Iguaçú. Ainda não conheço Salvador. Ainda não terminei o desenho à carvão. Ainda não fiz aquarela. Ainda não sei andar de bicicleta. Ainda não corri de kart. Ainda não sei tango. Ainda não fiz uma tatuagem. Ainda não pintei o cabelo de vermelho. Ainda não parei de sentir saudades do que não vivi. Ainda não parei de rodopiar. Ainda não parei de dançar.

'Parodiando' Lidita - "Para o 'eu, hein?'"

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Para o "eu, hein?"


não nasci na bahia. não vim pra brasília porque meu pai era militar. não conheço alguns membros da minha família. não conheço bem alguns membros do meu corpo. não li crime e castigo. não sei dirigir. não corro no eixão. não entro nos eixos. não dou crédito aos problemas. nunca fui a europa. não prendo o nariz pra mergulhar. não falo ‘você’. não gosto de filme de ficção científica. não acho pelé melhor que maradona. não quis ir a disney quando fiz 15 anos. não sou mãe. minha mãe não é a melhor do mundo. nunca atirei em ninguém. não gosto de segurar jornal. não desfilei no sete de setembro. não jogo tênis. não me responsabilizo pelo que digo, nem pelo que dizem de mim. não sei diferenciar chapinha de alisamento. não pinto as unhas. não tenho unhas. nunca ganhei prêmio nenhum. não quero rir do que ninguém ri. não faço teatro. não comparo preços. não ponho preço em ninguém. não gosto que estranhos me cutuquem enquanto falam comigo. não fui cara-pintada. não seqüestrei embaixador. não me lembro da morte do tancredo. não como rúcula nem sob tortura. nunca pedi um autógrafo. não sei pra onde estamos indo. não vou sozinha. não rezo pedindo nada. não esqueço cheiros. não perco amigos. não acumulo milhas. não sei como entrar pro guinness. não tenho tatuagem. não acho cool ser triste. não sinto saudades do que não vivi. não descobri o que o mundo quer de mim. nunca encontrei nicolas behr numa esquina de brasília.

- parodiando "POETA MARGINAL? EU, HEIN? " de Nicolas Behr

terça-feira, 29 de junho de 2010

1ª pessoa

Fui àquela festa. Conheci alguém que fez um comentário inédito para mim: “Você fala pronunciando todas as sílabas.” Fiquei muda, não sabia o que dizer. Nunca tinha levado uma cantada lingüística! O cara continuou falando sobre suas observações a respeito da minha fala: entonação, pronúncia de “s”, do “r”, expressões de linguagem regional... Enfim, veio a eterna pergunta: “De onde você é?” Essa, sem dúvida, a mais difícil de responder. Já aprendi que não devo responder que não sou de nenhuma cidade, ninguém entende. As cidades é que são minhas, quando eu as quero para mim. As pessoas reagem com ciúmes quando digo isso. Elas querem as cidades só para elas. Não sou de onde nasci, que, aliás, nunca vi. Nasci de uma mãe andarilhante, que não era de onde veio, nem de onde estava. Nasci num lugar, fui registrada em outro. Nenhum lugar me viu crescer, cresci no caminho. Não vivi em nenhum lugar, os lugares onde estive é que vivem em mim, nas minhas lembranças. Falo as línguas que me são faladas, pronuncio como me é pronunciado.
O cara fez cara de que entendeu, com todas as letras.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Maudernidades

Tem aqueles dias em que você não quer se abater, né? O cara tava no dormindo no aeroporto havia uns três dias. Mas, tava de boa. Família, bagagem pelo chão, banho na pia do banheiro, lanchonete sem pão de queijo, senha para fila de embarcar. Nada que tirasse alguém realmente do sério, afinal um vulcão pode entrar mesmo em erupção a qualquer momento, isso é normal, ele dizia! Somos modernos, repetia, temos espaço aéreo! Era absolutamente compreensível que, eventualmente, o espaço aéreo tivesse que ser cedido para uma intempérie, explicava o bonachão. A Natureza não entende dessas coisas de voar de avião e chegar na hora marcada. A Natureza é eterna, não tem sábado, domingo... Daí ele se deu conta: DOMINGO!!! Dia da final do campeonato!!! Decisão do Botafogo!! Caraca!!! Corre pro terminal onde o filho se instalou, aos berros tira o filho do game e acha o link pra ver a transmissão, vibra com essa coisa de tecnologia. Esfrega as mãos e, de repente, se lembra: o chapéu! Filho fica. Atravessa o saguão pulando sobre alemães, espanhóis, ingleses, turcos e chineses em fúria. Pô, já não basta a confusão, ainda vem um maluco esbarrando? -Mulher, cadê o chapéu do fogão? - Que fogão? a gente não trouxe a cozinha! - Não me provoca, meu chapéu da sorte! Hoje tem final! - Cara, acho que despachei os trapos na mala grande, só fiquei com o que a gente ir ter coragem de usar em público! - Não sacaneia, você sabe que o botafogo só ganha quando eu visto o chapéu da sorte! - Muito me admira você, Paulinho! Diz que não acredita em Deus, mas acredita num chapéu! -Paulinho, não! Paulão! Jogão! Finalzão! Fogão! De-ci-são! - Mãe, chapéu tem barba quinem deus? O cara olha pra filhinha rosada e bochechuda, brincando no chão de mármore, pensa que ela é lindinha como o papai, mas tinha que ter puxado a inteligência da mãe? De repente a visão! A estrelinha negra na cabeça do ursinho de pelúcia!! AH, isso é que é vida! Chapéu na cabeça, volta ouvindo os xingamentos em todas as línguas e fica na frente do monitor pra comemorar mais um título! A mulher, entre sem graça e afoita, se dá ao trabalho de explicar meio em inglês, meio em espanhol, com toques de francês- italianado, que aquele cara rebolando, arrebitando a pança, chacoalhando os ombros, levantando e abaixando os braços é um nativo de uma tribo sulamericana que está ensinado um rito para o filho, na esperança de fazer mover os ventos. Horas depois, liberados os vôos, a aeromoça pousa sobre a barriga do senhor com sorriso de criança, o chapeú que lhe caíra das mãos enquanto dormia, extenuado, ao lado da família a caminho de uma terra sem viulcões, sem terremotos, sem tsunamis e com o melhor futebol do mundo! Êta, dancinha poderosa!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Pesadelos


Da série Confissões

Normalmente, não sonho. Dizem que se sonha todos os dias, mas nem sempre restam lembranças. Não sei. Acho que sonho pouco. Dos sonhos bonitos, lembro alguns. Há os emocionantes, também. O que não esqueço são os pesadelos. Por que é que a gente tem de lembrar mais o que é ruim?

Com o trânsito, por exemplo, tenho pesadelos constantes. Vejo-me dirigindo, agarrada ao volante, perseguida por outros carros em alta velocidade. Só sei que tenho de pisar fundo e fugir. Parece aquele jogo de videogame que simula uma pista de corrida. Tenho horror àquilo, não jogo nem sob tortura. Acordo assustada e, de vez em quando, tenho a mesma sensação quando estou na rua de verdade.

Outro pesadelo é acordar no meio da noite achando que estou deitada em água. Desperto apalpando o colchão. Comecei a ter esse sonho desde que me mudei para Natal. Talvez porque nunca tenha visto tanta umidade na minha vida. Sou bicho de cerrado, terra seca. O inverno aqui é de chuva por três ou quatro meses. Então, às vezes tenho esse sonho: estou de novo no porão da Polícia Federal, onde fiquei presa por 24 horas, numa cela com uma cama de alvenaria, contígua à parede e pintada com tinta a óleo.

Sem cobertura, colchonete ou manta, era fria como o diabo. Com o chão inundado, o que esfriava ainda mais o ambiente, passei a noite sobre a tal cama de tijolo, acocorada, com medo de pôr os pés no chão por conta dos insetos que infestavam o local. Pois eu acordo com a impressão de que estou naquela celinha alagada. Tenho de tatear ao redor até perceber que estou na minha cama, seca e limpa.

Mas o pior de todos os sonhos é com insetos. Especificamente baratas. Tenho fobia a esse bicho. Aliás, horror a qualquer bicho, mas essa coisa pré-histórica é de arrepiar, de se jogar pela janela. Por conta desse maldito animal, nem consegui ler direito A Metamorfose, do Kafka. Eu começava a leitura e tinha engulhos, foi uma dificuldade. Nos meus pesadelos, vou à cozinha ou a outro cômodo da casa e encontro uma barata imensa. E ela, parada, começa a crescer até ficar do tamanho de um urso. É de acordar gritando.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Por um dia
queria
que todos acordassem
e estivessem falando
em português,
só um cadinho.
E para abusar
poderiam cantarolar
uma música da terrinha.

Só mesmo as aulas de francês
para relembrar o gênero, o número e o grau.
Eita, banzo!
Um ano e um mês!

terça-feira, 18 de maio de 2010

Boa e má novas,

Boa: boíssima pra mim, vimos, eu e Piti, Jhonny Winter, acabadinho que só, em Ceilândia. Valéria entende (Ferrock)? Caetana entende? Quem?
Má: maíssima pra mim, morreu Ronnie James Dio. Lídia, Carlinha lá dos confins, entendem? Caetana, mais uma vez?
Aproveito pra provocar: como vão seus ídolos? Anas Claudias fora, quem/quais são seus ídolos?

PS: EU TENHO A SENHAAAAAAAA!
(Rinoceros, ontem)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pisando nos próprios calcanhares

Eram os sapatos, tenho certeza. A cor marrom-chocolate, ou o bico meio Mary Poppins. As crianças se sentiam atraídas, se aproximavam, ficavam por perto. Foram os sapatos que me trouxeram as crianças. Do alto dos saltos eu me fazia palhaça, amarrada nos cadarços, me achando no topo do mundo. Depois veio um cara. Por medidas econômicas, se instalou na minha casa. Encheu tudo de verniz. Arrasta as sandálias de prata, arrasta sem parar. E, então, eu me achava feliz. Daí vieram as havaianas. Subi nas tamancas. Saí descalça. Foram-se os sapatos, ficaram os caminhos. Tomei meu rumo. Eu era outra. Outra vez.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Não sei dizer quando foi que a menina me apareceu. No abacateiro que vejo da minha janela, ela ficava pendurada. As pernas balançando, os olhos pra lá e pra cá, o sorriso aberto. Eu tentava imaginar o que ela imaginava, tentava adivinhar o que fazia seu sorriso se abrir. Tão grande. Mas ela não respondia o que eu não perguntava.
Quando ela sumia, alguma coisa ficava na minha janela. Uma foto. Uma flor. Uma faca suja de cobertura de bolo. Eu não me incomodava de limpar, de guardar as coisas. O que me incomodava era não tê-la por perto, não ver os abacates escapando de suas mãos, não registrar o seu riso pra poder levar comigo em mais um dia.
A menina era uma lembrança, uma conquista, uma página virada e um desafio. A menina era a menina e era eu. Não sei dizer quando desapareci.