a ira? a inveja? o medo?
a libido?
o dinheiro?
o riso? o choro?
a tv? a internet? o celular?
os olhos? as mãos? os intestinos? a língua?
o superficial? o profundo?
os dias? as noites?
os cabelos?
a agenda?
as chuvas? as marés?
*no quintal de casa cada um faz o que quer. porque esse quintal é grande, do tamanho que a gente fizer. uma rede pra se balançar e balançar os pensamentos ele tem. tem um pé de limão, uma goiabeira, uma porção de plantas e flores e uns cachorros pra bagunçar o coreto. criança e adulto querendo ouvir história também sempre aparecem. e a gente conta. histórias de quintal. *

porque no meio do incêndio a gente virava filme
porque no meio da história a gente pulava corda
porque no meio do salto a gente inventava regra
porque no meio da ordem a gente cantava distração
porque no meio da noite a gente cantava, inventava regra, pulava corda, virava filme e pegava fogo
porque no meio do sonho
antes do fim da história
com a corda ainda no ar
distraidamente
a gente pegava no sono

FORÇA DE UM MITO - Marcelo Coelho
Trânsito. Chuvas. Confusão.
O Natal é a festa das crianças.
Para muitos pais, entretanto, é um verdadeiro inferno.
O Volvo de Denise estava parado no Itaim.
Destino: um shopping de altíssimo luxo no Morumbi.
No banco de trás, quatro crianças mostravam péssimo comportamento.
Berros. Manhas. Mordidas.
O belo rosto de Denise tentou inspirar terror.
--Se vocês não pararem, Papai Noel não traz presente.
A advertência foi ignorada pelos pequenos capetas.
Denise ia tomar medidas radicais quando um vulto se aproximou.
Roupa vermelha. Barbas brancas. Um gorro. As crianças ficaram quietas.
--Papai Noel? É você?
Não exatamente. Era o Caçula. Perigoso assaltante em atividade na região.
Na mira do 38, Denise entregou a bolsa, as jóias e a chave do carro.
Denise e os filhos voltaram de ônibus para casa. O maiorzinho já promete.
--Ano que vem a gente se comporta melhor, mamãe. Eu juro.
Mito e realidade, por vezes, são como os adultos. Adotam estranhos disfarces.