Está ficando insuportável.
Não... já é insuportável e pedante.
A mesmice, a tarde de domingo monótona.
A completa falta de assunto, a falta de criatividade.
É a beleza impura, a feiura em sua essência.
O oposto do que deveria ser,
seu pior castigo, o seu próprio martírio.
É a vida sem vida.
É o palhaço triste, que não consegue fazer sorrir nem a si mesmo.
O Plebeu não correspondido.
O infeliz que nunca saiu do esquecimento.
É a única fonte de sua própria lembrança.
*no quintal de casa cada um faz o que quer. porque esse quintal é grande, do tamanho que a gente fizer. uma rede pra se balançar e balançar os pensamentos ele tem. tem um pé de limão, uma goiabeira, uma porção de plantas e flores e uns cachorros pra bagunçar o coreto. criança e adulto querendo ouvir história também sempre aparecem. e a gente conta. histórias de quintal. *
terça-feira, 29 de maio de 2007
Dez anos depois...
continuando minha saga escolar, para leitoras mais incautas: em 1977, entrei no segundo grau. Não, não repeti nenhum ano, interrompi os estudo por um ano para perambular pela europa, pois achava que eles explodiriam tudo em cinco segundos e eu queria ver umas coisas antes disso acontecer. Aliás, queria ver tudo explodir.
Aqui a paisagem era verde oliva. Os grêmios estudantis desativados, a universidade invadida, a repressão exibia seus soturnos coturnos sem laços cor de rosa. A escola era um tééééééééédio. Não podíamos nada, nem pensar! mas, nossa inteligência e o talento especial da época para bobagens se manifestavam mesmo assim!
Minha estréia em passeatas foi justamente uma bravata. Saímos da escola com cartazes contra a queda do skylab, o satélite americano que ia cair em algum lugar no mundo, não se sabia onde. Um dos cartazes dizia: "se cair no pé do Zico é gol!" Um monte de gente foi aderindo no caminho para o Conjunto Nacional, achando graça da forma encontrada para enfrentar a ordem de dispersar, ou aproveitando para bradar: abaixo o imperialismo americano! Fomos reprimidos por um batalhão de choque com cavalos e cães na altura do CONIC. Os dois que foram presos passaram um apuro para conter o riso diante do delegado, desconcertado com o motivo da baderna. Se fossem "de maior" teriam ficado "fichados".
Na verdade, qualquer um que se arriscasse a mexer os braços e pernas ao mesmo tempo já ficava carimbado como agitador!
Naquele tempo para subverter a ordem bastava estampar um sorriso na cara!
Aqui a paisagem era verde oliva. Os grêmios estudantis desativados, a universidade invadida, a repressão exibia seus soturnos coturnos sem laços cor de rosa. A escola era um tééééééééédio. Não podíamos nada, nem pensar! mas, nossa inteligência e o talento especial da época para bobagens se manifestavam mesmo assim!
Minha estréia em passeatas foi justamente uma bravata. Saímos da escola com cartazes contra a queda do skylab, o satélite americano que ia cair em algum lugar no mundo, não se sabia onde. Um dos cartazes dizia: "se cair no pé do Zico é gol!" Um monte de gente foi aderindo no caminho para o Conjunto Nacional, achando graça da forma encontrada para enfrentar a ordem de dispersar, ou aproveitando para bradar: abaixo o imperialismo americano! Fomos reprimidos por um batalhão de choque com cavalos e cães na altura do CONIC. Os dois que foram presos passaram um apuro para conter o riso diante do delegado, desconcertado com o motivo da baderna. Se fossem "de maior" teriam ficado "fichados".
Na verdade, qualquer um que se arriscasse a mexer os braços e pernas ao mesmo tempo já ficava carimbado como agitador!
Naquele tempo para subverter a ordem bastava estampar um sorriso na cara!
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Sábado à noite
Pra quê tantos livros, se não os leio?
Pra quê tanta sede de conhecimento, se não me esforço para saciá-la?
Qual o sentido da minha vida, se me vejo, em um fim de noite, com sono, sentada em um chão frio e sujo, em volta de roupas e sapatos jogados, espalhados pelos cantos?
O que faço com esses objetos inertes, que não podem falar nem ouvir, se me vejo esquecida e precisando de alguém?
Quanta fonte de inspiração e conhecimento ainda não explorada!
Quando vazio, que o comodismo, aliado ao tédio que rodeia minha vida, não me deixa preencher! Está tudo parado, como se estivesse me olhando e pedindo para ser explorado, tocado, notado, ao menos.
Inércia ociosa e preguiça, bagunça e sujeira, trapo, desorganização e um ser humano.
Tudo reunido, em um só lugar, com aspecto de tristeza e esquecimento, onde a trilha sonora da nostalgia, das lembranças, da falta de um amor maior e de uma companhia, toca sem parar.
Tanta coisa preenchendo e ainda deixando tudo vazio... tanta coisa cara sem nenhum valor... tanta coisa valiosa e, ao mesmo tempo, indiferente.
Só você seria capaz de preencher o meu vazio.
Só você faria a diferença entre tantas coisas e pessoas que rodeiam a minha vida.
Só você teria valor para mim, você e mais ninguém.
Só queria ter você. Sim, você que ainda não conheço.
Um fio de felicidade, uma seta que desse sentido à minha vida.
Pra quê tanta sede de conhecimento, se não me esforço para saciá-la?
Qual o sentido da minha vida, se me vejo, em um fim de noite, com sono, sentada em um chão frio e sujo, em volta de roupas e sapatos jogados, espalhados pelos cantos?
O que faço com esses objetos inertes, que não podem falar nem ouvir, se me vejo esquecida e precisando de alguém?
Quanta fonte de inspiração e conhecimento ainda não explorada!
Quando vazio, que o comodismo, aliado ao tédio que rodeia minha vida, não me deixa preencher! Está tudo parado, como se estivesse me olhando e pedindo para ser explorado, tocado, notado, ao menos.
Inércia ociosa e preguiça, bagunça e sujeira, trapo, desorganização e um ser humano.
Tudo reunido, em um só lugar, com aspecto de tristeza e esquecimento, onde a trilha sonora da nostalgia, das lembranças, da falta de um amor maior e de uma companhia, toca sem parar.
Tanta coisa preenchendo e ainda deixando tudo vazio... tanta coisa cara sem nenhum valor... tanta coisa valiosa e, ao mesmo tempo, indiferente.
Só você seria capaz de preencher o meu vazio.
Só você faria a diferença entre tantas coisas e pessoas que rodeiam a minha vida.
Só você teria valor para mim, você e mais ninguém.
Só queria ter você. Sim, você que ainda não conheço.
Um fio de felicidade, uma seta que desse sentido à minha vida.
Há exatos quarenta anos eu entrava no sistema
Educacional brasileiro, se isso existe. Uma amiga me deixou um scrap e me fez lembrar. Grupo Escolar Tiradentes - entra burro, sai presidente! Ìamos de ônibus monobloco, pulando nos bancos para alcançar o teto passando quebra-molas. Na volta, colocávamos as pastas na fila, pra pegar lugar no ônibus e corríamos para a praça em frente. Praça dezenove de novembro, mais popularmente conhecida como a praça do homem nú. Curitiba estava mobilizada protestando contra a colocação do casal de estátuas vencedoras de um concurso, a mulher nua censurada hoje já pode ser visitada. Aos pés do enorme homem de pedra, um terrível cheiro de mijo, nada mais realista...
Fazem quarenta anos, afinal, que entrei pra escola. Nem sei se já não cheguei lendo e escrevendo na escola. O relato do tio que me conduziu pela mão deu conta só da minha tremedeira. Meus joelhos de olívia batiam um no outro. Em pleno 67, ser estudante era inconfessável!! Presenciei enfrentamentos com a polícia em plena rua e, como se não bastasse, esse mesmo tio havia chegado em casa, careca coberto com ovos e tinta e farinha e bêbado feito um gambá...por ter entrado na universidade! Nem imagino o que se passava na minha cabeça, mas entendo meu medo entrar para aquele mundo naquele momento.
Melhores momentos do primeiro ano na escola? As visitas à biblioteca (até hoje sinto que encontro minha alma nas estantes de livros), os passeios amarrados na cordinha, a horta, as normalistas ensinando a fazer manteiga...
Da escola o que mais lembro está do lado de fora!
Fazem quarenta anos, afinal, que entrei pra escola. Nem sei se já não cheguei lendo e escrevendo na escola. O relato do tio que me conduziu pela mão deu conta só da minha tremedeira. Meus joelhos de olívia batiam um no outro. Em pleno 67, ser estudante era inconfessável!! Presenciei enfrentamentos com a polícia em plena rua e, como se não bastasse, esse mesmo tio havia chegado em casa, careca coberto com ovos e tinta e farinha e bêbado feito um gambá...por ter entrado na universidade! Nem imagino o que se passava na minha cabeça, mas entendo meu medo entrar para aquele mundo naquele momento.
Melhores momentos do primeiro ano na escola? As visitas à biblioteca (até hoje sinto que encontro minha alma nas estantes de livros), os passeios amarrados na cordinha, a horta, as normalistas ensinando a fazer manteiga...
Da escola o que mais lembro está do lado de fora!
quinta-feira, 24 de maio de 2007
Solitária e companheira abobrinha
Sinto falta da minha abobrinha... Vejo tantas por ai, mas não é a minha.
Ela me acalentava nos momentos de angústias...
Vendo-a solitária na geladeira vazia, eu controlava minha ansiedade. Abria a geladeira, a via e fechava, pois não tinha nada além de garrafas vazias de água, molho inglês, alho e a abobrinha. Por que não a cozinhei?
Se eu a comesse, ai sim, eu ficaria solitária nos momentos de ansiedade e de vontade de comer tudo que via pela frente,
... as carnes dos finais e meios de semana, as lingüiças de outrora, que hoje despertam nos sonhos insólitos.
Cacos de vidro, amores proibidos, beijos desejados, amores reprimidos, desejos de alcova.
Puxa, e ninguém percebeu o meu sorriso e olhar para ele?
Talvez pela expansividade eu escondo o que quero realmente dizer...
Para onde vou? Com quais sapatos devo sair? Ou irei descalça?
Ela me acalentava nos momentos de angústias...
Vendo-a solitária na geladeira vazia, eu controlava minha ansiedade. Abria a geladeira, a via e fechava, pois não tinha nada além de garrafas vazias de água, molho inglês, alho e a abobrinha. Por que não a cozinhei?
Se eu a comesse, ai sim, eu ficaria solitária nos momentos de ansiedade e de vontade de comer tudo que via pela frente,
... as carnes dos finais e meios de semana, as lingüiças de outrora, que hoje despertam nos sonhos insólitos.
Cacos de vidro, amores proibidos, beijos desejados, amores reprimidos, desejos de alcova.
Puxa, e ninguém percebeu o meu sorriso e olhar para ele?
Talvez pela expansividade eu escondo o que quero realmente dizer...
Para onde vou? Com quais sapatos devo sair? Ou irei descalça?
terça-feira, 22 de maio de 2007
A Divina Chimera
Correu no Egypto, em pavida anciedade,
Um brado de terror ! presentimento,
Intuição que não erra !
Que do mundo ao findar da velha edade,
N'um lugubre momento,
Inda antes de raiar a nova aurora
Dos seculos, em que o porvir se encerra,
Do sepulchral moimento
Hirtas, sahindo fóra
Todas as Mumias se erguerão da terra !
Que mão rasga a mortalha ?
Que sôpro vivifica o ataúde ?
Com insistencia a estranha voz se espalha;
Um brado de terror ! presentimento,
Intuição que não erra !
Que do mundo ao findar da velha edade,
N'um lugubre momento,
Inda antes de raiar a nova aurora
Dos seculos, em que o porvir se encerra,
Do sepulchral moimento
Hirtas, sahindo fóra
Todas as Mumias se erguerão da terra !
Que mão rasga a mortalha ?
Que sôpro vivifica o ataúde ?
Com insistencia a estranha voz se espalha;
A consciencia do povo não se illude !
(Teophilo Braga)
segunda-feira, 21 de maio de 2007
So sprach...

No momento ela está abraçada ao namorado. Os dois deitados na cama, a janela aberta, os passarinhos à espreita, a cachorra com a cabeça entre as grades, o vento bagunçando a cortina e ele diz que a ama.
Como é que é?
Mas não diz nada e beija o rapaz. Beija, abraça, beija e beija mais. Acredita estar ganhando tempo. Ele vai esquecer que disse isso, ele vai esquecer. A cachorra late (Parem com esse agarramento aí – era o que queria dizer). A menina olha para a janela, ri e, quando volta o rosto para o namorado, toma outro “te amo” a queima-roupa. Parte para o plano B: coloca a mão por dentro da bermuda. E beija. E pensa se aquilo será sério de fato. Como é que alguém fala uma coisa dessas, assim, sem avisar, sem preparar o espírito do outro? Por que não trouxe uma caixa de bombons ou algo qualquer que sinalizasse o teor amoroso do encontro? Os lábios doem. Precisam parar. Ela se vira de costas escorregadia e encosta seu corpo no dele bem encostado. Novamente ouve o rapaz dizer que a ama. Nunca sentiu nada tão duro. As palavras no ouvido, pedras na sua vidraça. Para que não quebre, resolve abrir, deixar entrar – e devolver o que foi atirado. Aliás, sempre ouviu falar que janelas fechadas não fazem bem à saúde. Talvez prefira mesmo tomar uns sustos assim de vez em quando.
FAIR DINKUM!!!
Written in the Australian aborigine idiom, it can be applicable on both sides of the Equator.
FAIR DINKUM!!!
Dear White Fella,
couple things you should know.
When I born, I black
When I grow up, I black
When I go in sun, I black
When I cold, I black
When I scared, I black
When I sick, I black
And when I die, I still black.
You White Fella,
When you born, you pink
When you grow up, you white
When you go in sun, you red
When you cold, you blue
When you scared, you yellow
When you sick, you green
And when you die, you grey
And you have the cheek to call me COLOURED?
FAIR DINKUM!!!
Dear White Fella,
couple things you should know.
When I born, I black
When I grow up, I black
When I go in sun, I black
When I cold, I black
When I scared, I black
When I sick, I black
And when I die, I still black.
You White Fella,
When you born, you pink
When you grow up, you white
When you go in sun, you red
When you cold, you blue
When you scared, you yellow
When you sick, you green
And when you die, you grey
And you have the cheek to call me COLOURED?
domingo, 20 de maio de 2007
Horários
Jaana, moça direita, bosta pela manhã. Eu, desregrada, bosto de madrugada. Rima fácil, mas, tecnicamente, rica e perfeita.
Em casa, trabalhando até esta hora, onde já se viu?
E juro que não bebi. Infelizmente.
Em casa, trabalhando até esta hora, onde já se viu?
E juro que não bebi. Infelizmente.
sábado, 19 de maio de 2007
Sobre a vida e sobre viver ou sobreviver sobre a vida
"Quem sabe eu tive de algum modo pressa de viver logo tudo o que eu tivesse a viver para que me sobrasse tempo de... de viver sem fatos? de viver. Cumpri cedo os deveres de meus sentidos, tive cedo e rapidamente dores e alegrias - para ficar depressa livre do meu destino humano menor? e ficar livre para buscar a minha tragédia"
Clarice Lispector, em A paixão segundo GH
"Faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte"
"A vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre"
Clarice Lispector, em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
Clarice Lispector, em A paixão segundo GH
"Faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte"
"A vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre"
Clarice Lispector, em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
sexta-feira, 18 de maio de 2007
Caixa escura
Não sei se caso ou se compro uma bicicleta...
Caramba! Hoje sonhei que eu tinha uma filha. Era um bebê com mais ou menos um ano, a coisa mais fofa do mundo. Mas acho que eu não era uma boa mãe no meu sonho... A menina dormia acalentada pelo meu irmão, acordava e ficava o dia todo com minha mãe, e eu sempre no mundo. Que sonho louco! Apesar de ser uma sensação meio maluca a de acordar sendo mãe, fiquei morrendo de vontade de ter uma filha de verdade. Eu e minhas vontades... Semana passada decidi que queria ter um cachorrinho. A idéia parecia maluca tendo em vista que moro em um kit menor que um ovo de codorna e passo o dia fora. Foi duro tirar a idéia da cabeça. Mas, pensando bem, ter um cachorrinho não é lá um projeto tão maluco diante do de ter uma filha. Vou reconsiderar.
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Problemas de Comunição
Certa vez uma família inglesa foi passar as férias na Alemanha. No decorrer de um dos passeios, viram uma pequena casa de campo, que lhes pareceu boa para passar as férias de verão.Foram falar com o proprietário, um pastor alemão, e combinaram alugá-la no verão seguinte.
De volta à Inglaterra discutiram muito sobre a planta da casa. De repente a senhora lembrou-se de não ter visto o W.C. Confirmando o sentido prático dos ingleses, escreveram imediatamente para confirmar tal detalhe; a carta foi escrita assim:
Gentil Pastor,
Sou membro da família inglesa que há pouco visitou-o com o fim de alugar a sua propriedade no próximo verão. Como esquecemos um detalhe, muito agradeceríamos que nos informasse onde se encontra o W.C.
O pastor, não compreendendo o significado da abreviatura W.C. e julgando tratar-se da capela da seita inglesa White Chapel, respondeu nos seguintes termos:
Gentil Senhora,
Tenho o prazer de comunicar-lhe, que o local de seu interesse fica a 12 quilômetros da casa. É muito comodo, sobretudo se existe o hábito de ir lá freqüentemente. Nesse caso é preferível levar comida para passar lá o dia inteiro. Alguns vão á pé, outros de bicicletas visto não haver outro meio de transporte adequado. Há lugar para 400 pessoas sentadas e 100 em pé, o ar é condicionado para evitar os incovenientes da aglomeraçao.E recomenda-se chegar cedo para arrumar lugar sentado, pois os assentos são de veludo. As crianças sentam-se ao lado dos adultos e todos cantam côro.Na entrada é distribuída uma folha de papel para cada um; porém se alguém chegar depois da distribuição, pode usar a folha do vizinho ao lado. Tal folha deve ser restituída a saída para poder ser usada durante o mês. Existem ampliadores de som. Tudo o que se recolhe é para as criancinhas pobres da região. Fotógrafos especiais tiram fotos para os jornais da cidade, a fim de que todos possam ver os seus semelhantes no desempenho de um dever tão humano."
De volta à Inglaterra discutiram muito sobre a planta da casa. De repente a senhora lembrou-se de não ter visto o W.C. Confirmando o sentido prático dos ingleses, escreveram imediatamente para confirmar tal detalhe; a carta foi escrita assim:
Gentil Pastor,
Sou membro da família inglesa que há pouco visitou-o com o fim de alugar a sua propriedade no próximo verão. Como esquecemos um detalhe, muito agradeceríamos que nos informasse onde se encontra o W.C.
O pastor, não compreendendo o significado da abreviatura W.C. e julgando tratar-se da capela da seita inglesa White Chapel, respondeu nos seguintes termos:
Gentil Senhora,
Tenho o prazer de comunicar-lhe, que o local de seu interesse fica a 12 quilômetros da casa. É muito comodo, sobretudo se existe o hábito de ir lá freqüentemente. Nesse caso é preferível levar comida para passar lá o dia inteiro. Alguns vão á pé, outros de bicicletas visto não haver outro meio de transporte adequado. Há lugar para 400 pessoas sentadas e 100 em pé, o ar é condicionado para evitar os incovenientes da aglomeraçao.E recomenda-se chegar cedo para arrumar lugar sentado, pois os assentos são de veludo. As crianças sentam-se ao lado dos adultos e todos cantam côro.Na entrada é distribuída uma folha de papel para cada um; porém se alguém chegar depois da distribuição, pode usar a folha do vizinho ao lado. Tal folha deve ser restituída a saída para poder ser usada durante o mês. Existem ampliadores de som. Tudo o que se recolhe é para as criancinhas pobres da região. Fotógrafos especiais tiram fotos para os jornais da cidade, a fim de que todos possam ver os seus semelhantes no desempenho de um dever tão humano."
A temporada seca
Há semanas ensaio escrever. Uma história engraçada. Um conto de terror com a abobrinha que murchou na geladeira. Há meses ensaio escrever o artigo que não passa da estrutura. Idéias anotadas. Parágrafos em construção. A história não sai. O artigo não sai. As heras crescem entre as letras. Entre as palavras. Heras de novos projetos. Heras de novas e antigas urgências. Urgências minhas. Urgências dos outros e de outros. Urgências de muitos cantos de um país. De muitas vozes. De um silêncio. Urgência de um colo. De uma de noite de sono profundo. Foram se emaranhando em meu pensar. Até matear tudo no cérebro. Crescem assim desordenadas. Sufocam as conexões ainda em broto. Vão mateando perto da raiz dos vocábulos. Alastraram-se pelas derivações e encobrem as desinências. Não há o que fazer. Desaprendo a escrever o mundo e fixo um olho no oco do tempo. Analfebatizo-me para reler uns mundos mais vastos e mais urgentes que os meus. Guardo meu tempo. Mas ele foge pela fresta do oco. Fica mudo e não quer contar nada para meu urgente artigo. Artigo oco. Já passou o tempo do envio para publicação. Se ao menos publicassem artigos ocos... Pobrezinho. Murchou como a abobrinha. Duas abobrinhas. A da geladeira e a da publicação. Murchinhas.
terça-feira, 15 de maio de 2007
Saudade
A um ausente
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Carlos Drummond de Andrade

Crise de produção
Lidia:
Cuméquié, mulherada?! Hoje é dia 15. Metade do mês se passou e temos apenas 4 postagens no blog!
Ana Silva:
Eu não tenho mais nada escrito. Acabou tudo.
Lidia:
então começa a escrever de novo
Ana Silva:
Analfabetizei-me.
Lidia:
mas é cada desculpa que esse pessoal arranja... vou te contar
Piti:
Não é desculpa não, eu também tô narfa...tão narfabeta que nem conseguia lembrar o que era login...
Valiosa:
login é quando a gente vorta rapidin
vô ali, vorto login
...
Cuméquié, mulherada?! Hoje é dia 15. Metade do mês se passou e temos apenas 4 postagens no blog!
Ana Silva:
Eu não tenho mais nada escrito. Acabou tudo.
Lidia:
então começa a escrever de novo
Ana Silva:
Analfabetizei-me.
Lidia:
mas é cada desculpa que esse pessoal arranja... vou te contar
Piti:
Não é desculpa não, eu também tô narfa...tão narfabeta que nem conseguia lembrar o que era login...
Valiosa:
login é quando a gente vorta rapidin
vô ali, vorto login
...
sexta-feira, 11 de maio de 2007
What Not To Name Your Dog
Everybody who has a dog calls him “Rover” or “Spot” or “Fido”. I made the mistake of calling mine “Sex”.
Now, Sex has been very embarrassing to me. When I went to city hall to renew his dog license, I told the clerk I would like a license for Sex. He said, "I'd like to have one too!" Then I said, "But this is for a dog." He said, "I don't care what she looks like." Then I said, "You don't understand, I've had Sex since I was nine years old." He said, "You must have been quite a kid."
When I got married and went on my honeymoon, I took the dog with me. Not wanting the dog to bother us, I told the clerk that I wanted a room for my wife and me and a special room for Sex. He said that every room in the place was for sex. I said, "You don't understand, Sex keeps me awake at night." The clerk said, "Me too."
Few years ago, I entered Sex in a dog show. Before the competition began, another contestant asked me what I was doing there. I told him that I planned to have Sex in the show. He said that I should have sold my own tickets. When I asked if the show was televised he called me a pervert.
I left my dog at the Veterinarian. When I went to pick him up I said, "I've come for my dog." She said, "Which one, Spot, Fido or Rover?" I said, "What about Sex?" She slapped me. After I straightened out the misunderstanding, I asked if Sex was good for her. She slapped me again.
One day, Sex ran away. I went to the dog pound. As I was looking in all the cages the operator came up to me. I said I was looking for Sex. He said I was looking in all the wrong places.
When my wife and I separated, we went to court to fight for custody of the dog. I said, "Your Honor, I had Sex before I was married." He said, "What's your point, so did I." I said, "But my wife wants to take Sex away." He said, "That's what happens in a divorce."
Last night Sex ran off again. I spent hours looking for him all over town. A cop came over to me and asked, "What are you doing in this alley at 4 o'clock in the morning?" I said I was looking for Sex.
My case comes up Friday.
Now, Sex has been very embarrassing to me. When I went to city hall to renew his dog license, I told the clerk I would like a license for Sex. He said, "I'd like to have one too!" Then I said, "But this is for a dog." He said, "I don't care what she looks like." Then I said, "You don't understand, I've had Sex since I was nine years old." He said, "You must have been quite a kid."
When I got married and went on my honeymoon, I took the dog with me. Not wanting the dog to bother us, I told the clerk that I wanted a room for my wife and me and a special room for Sex. He said that every room in the place was for sex. I said, "You don't understand, Sex keeps me awake at night." The clerk said, "Me too."
Few years ago, I entered Sex in a dog show. Before the competition began, another contestant asked me what I was doing there. I told him that I planned to have Sex in the show. He said that I should have sold my own tickets. When I asked if the show was televised he called me a pervert.
I left my dog at the Veterinarian. When I went to pick him up I said, "I've come for my dog." She said, "Which one, Spot, Fido or Rover?" I said, "What about Sex?" She slapped me. After I straightened out the misunderstanding, I asked if Sex was good for her. She slapped me again.
One day, Sex ran away. I went to the dog pound. As I was looking in all the cages the operator came up to me. I said I was looking for Sex. He said I was looking in all the wrong places.
When my wife and I separated, we went to court to fight for custody of the dog. I said, "Your Honor, I had Sex before I was married." He said, "What's your point, so did I." I said, "But my wife wants to take Sex away." He said, "That's what happens in a divorce."
Last night Sex ran off again. I spent hours looking for him all over town. A cop came over to me and asked, "What are you doing in this alley at 4 o'clock in the morning?" I said I was looking for Sex.
My case comes up Friday.
Porquê adoramos as crianças
De um menino de 7 anos, no ambiente de trabalho da mãe, para o ex-chefe dela:
- Você é chefe da mamãe?
- Já fui.
- Então agora você trabalha?
- Você é chefe da mamãe?
- Já fui.
- Então agora você trabalha?
sexta-feira, 4 de maio de 2007
Brotar
Queria nascer jardim com as roseiras de minha janela. Rosas grandes e românticas, rosas pequenas com doçura e faceirice. Acordam e olham pra mim. Estão cheias de botões, grandes e pequenininhos. Só me espetei em espinho uma única vez. São delicadas minhas rosas. E são minhas e de quem quiser olhá-las. Não sei quando brotarão novos botões, não sei quando abrirão os que nasceram, não sei quando morrerão. Não vivem muito, mas o suficiente para me fazerem sorrir, mesmo só pela sua lembrança.
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Não é um mistério??

Garoto de aluguel
Baby !
Dê-me seu dinheiro que eu quero viver
Dê-me seu relógio que eu quero saber
Quanto tempo falta para lhe esquecer
Quanto vale um homem para amar você
Minha profissão é suja e vulgar
Quero pagamento para me deitar
Junto com você estrangular meu riso
Dê-me seu amor que dele não preciso
Baby !
Nossa relação acaba-se assim
Como um caramelo que chegasse ao fim
Na boca vermelha de uma dama louca
Pague meu dinheiro e vista sua roupa
Deixe a porta aberta quando for saindo
Você vai chorando e eu fico sorrindo
Conte pras amigas que tudo foi mal
Nada me preocupa de um marginal
segunda-feira, 30 de abril de 2007
Confissão

Prazeres imediatos me apetecem. Mas confesso que já não me seduzem como em outros tempos. Não quero mais ter comida e sentir a barriga vazia. Quero água pra matar a sede. O suficiente pra beber e pra banhar. Nada que transborde, não, não é isso. Que chegue até a margem, isso basta. Pronto! Quero um marginal.
terça-feira, 24 de abril de 2007
segunda-feira, 23 de abril de 2007
a saga da imagem-não-imagem

parte I
Conseguimos capturar a imagem proibida! É isso mesmo minha gente. Por incrível que possa parecer a imagem inapreensível parece ser a de um casal curtindo um esplendoroso dia à beira mar. Ao que tudo indica, a imagem impossível está escondida na praia de Itacimirim, nas proximidades de Salvador. Ainda não se sabe, se a imagem é inexistente, como Caetana, se é da ordem do sobrenatural, como talvez a quereria a pequena Lídia, ou se é ainda, apenas, um fato desconhecido e sexual (como sempre querem incutir à autora). Um estudioso renomado, Marco Rhino (especialista em dêixes e permitamês) concluiu ser a imagem derivada do mundo das idéias de Platão, "por hora, nada ainda está provado; pois a ciência necessita da observação, e ninguém viu o de quê se trata, mas não se pode negar indícios de um casal amoroso, clara presença do idealismo platônico, com traços da ainda persistente ideologia burguesa-romântica".
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Queria escrever um conto de terror

Uma vó, sua mãe, uma tia. As outras não reconhece. Elas falam coisas desconexas, palavras e mais palavras que não lhe dizem nada. Continua parada, no entanto, escutando e começa a lembrar de como aquilo teve início.
Conversavam num bar, ela e as amigas, sobre a dificuldade de escrever contos de terror. Julgavam complicado não parecer ridículo ou piegas um texto que tentasse retratar medo, sofrimento e outras coisas do gênero. Como era de costume, falaram e riram durante horas, até uma delas sugerir que fossem embora. No dia seguinte todas trabalhariam.
Ela seguiu sozinha para casa, que ficava a duas quadras do bar. Foi caminhando distraidamente, pensando que seria mais fácil escrever algo se um fato horripilante acontecesse em frente aos seus olhos (claro, não precisava acontecer com ela). Talvez um acontecimento sobrenatural, xícaras flutuando, portas batendo – sim, isso seria um bom mote, pensava a nossa personagem.
A sexta-feira transcorreu normalmente. No trabalho, o mesmo ritmo de sempre e, fora dois ou três telefonemas recebidos de algum engraçadinho que só queria ouvir sua voz, nenhuma reclamação a fazer. Saiu às 18h30 e foi para a aula de natação. Continuou imaginando coisas que poderiam acontecer para despertar sua escrita de terror: alguém se afogando na piscina, gritando que está sendo puxado... Mas o grito que ela ouviu foi o do professor – não queria ver ninguém parado na água.
Sábado. Mais um dia e nenhum parágrafo no papel. Resolveu dar uma volta de bicicleta – talvez um pneu furado a fizesse parar em frente a uma casa estranha, com movimentos e barulhos estranhos de pessoas estranhas... Estava ficando tensa por não ter o que escrever. Estranho isso. Pedalou até o parque da cidade e parou para tomar uma água de coco. Rapazes jogavam futevôlei, meninas patinavam e crianças brincavam nos carrinhos-de-choque. Nada de terrível poderia acontecer num cenário desses.
Ficou até anoitecer no parque, pedalando entre outras tantas pessoas. No caminho para casa, passou pela parte mais vazia do parque, uma vasta área onde haviam pinheiros enormes. Um desses pinheiros bem que poderia cair, imaginava ela. Mas não, o que aconteceu foi que seu pneu furou. Foi. E escureceu totalmente. E começou a ventar forte. Algo amedrontador, enfim. Parada por um minuto pensando no que faria, baixou e levantou os olhos algumas vezes. Foi então que viu: a vó, a mãe, a tia e outras mulheres.
Uau, está vendo pessoas mortas. Agora sim vai ter o que escrever. Pensa nas amigas lendo seu assombroso texto povoado de mulheres mortas que a cercam num parque. E é isso que ocorre. As criaturas fazem um círculo ao redor dela – que organização! Será que farão uma ciranda? Elas falam coisas desconexas, palavras e mais palavras que não lhe dizem nada. Continua parada, no entanto, escutando. Queria ter papel, caneta e um pouco mais de medo nessa hora. Queria correr, tropeçar num galho, cair e ser arrastada pelas fantasmas, mas não, continua parada.
Percebe, depois de um bom tempo, que ainda está parada. As mulheres não estão mais em volta dela e ela ainda está parada. Olha para seus pés. Onde estão? Não os vê, o que vê é um carro estacionando próximo a ela. Adolescentes bebendo e cantando. Uma das meninas começa a tirar a roupa e os rapazes jogam seu corpo entorpecido no capô do carro. Não têm vergonha de fazer isso na frente dela? Não há muita luz, mas não acredita que não a estejam vendo. Um deles vem em sua direção. Sente-se petrificada de medo (agora só precisaria do papel e da caneta)... Ele está urinando? Ele está mijando nela?! Está.
Então ela entende. E só lamenta não poder escrever essa história.
p.s. Todo mundo resolveu escrever hoje... rs rs rs
Meu amigo chega amanhã

Fui para o parque de águas quentes com Simone e Aurora. Tomei um copo e meio de caipirinha e fiquei me sentido muito mal. Desde que terminei o tratamento com acumputura, meu organismo está fraco para bebidas alcoólicas. Estou meio enjoada.
Levei Simone para a Rodoviária e não sei muito bem como consegui chegar na casa de Aurora, colocar o carro na garagem estreita, conversar com ela, descer para Pousada, entrar no quarto. Em minha mente, essa sequência aparece desordenada, insólita como um sonho.
Meu amigo chega amanhã. Sai de Sampa hoje pela manhã. Não vejo a hora dele chegar. Aurora é legal, mas não tem muito pique para fazer caminhadas longas, com muitas subidas e descidas. Meu amigo de traquinagens logo vai chegar para passarmos as férias juntos.
Fui caminhando até bem perto da cachoeira da serra. Gasta-se mais ou menos uma hora para chegar até lá saindo da Pousada. De lá fui para as águas quentes. Nadei na piscina semi-olímpica, depois cozinhei no "caldeirão". Em seguida, fui para a outra piscina menos quente onde fiquei boiando e viajando. Viajei tanto que quase me afoguei por causa do susto com o barulho da sirene sinalizando que o parque iria fechar. Voltei cantarolando. Alegria. Meu amigo chega amanhã. Vamos daqui para o Dedo de Deus no Vale dos Sonhos.
Levei Simone para a Rodoviária e não sei muito bem como consegui chegar na casa de Aurora, colocar o carro na garagem estreita, conversar com ela, descer para Pousada, entrar no quarto. Em minha mente, essa sequência aparece desordenada, insólita como um sonho.
Meu amigo chega amanhã. Sai de Sampa hoje pela manhã. Não vejo a hora dele chegar. Aurora é legal, mas não tem muito pique para fazer caminhadas longas, com muitas subidas e descidas. Meu amigo de traquinagens logo vai chegar para passarmos as férias juntos.
Fui caminhando até bem perto da cachoeira da serra. Gasta-se mais ou menos uma hora para chegar até lá saindo da Pousada. De lá fui para as águas quentes. Nadei na piscina semi-olímpica, depois cozinhei no "caldeirão". Em seguida, fui para a outra piscina menos quente onde fiquei boiando e viajando. Viajei tanto que quase me afoguei por causa do susto com o barulho da sirene sinalizando que o parque iria fechar. Voltei cantarolando. Alegria. Meu amigo chega amanhã. Vamos daqui para o Dedo de Deus no Vale dos Sonhos.
PROVAS DA INEXISTÊNCIA
É. Já decidi. Eu realmente não existo. Mandei mensagem para um amigo. Telefonei. Mandei mensagem de novo. Sem resposta. Telefone sempre na caixa de mensagens. Eu nunca deixo mensagens de voz. Gosto dos textos. Não gosto da voz. Há uns dias ele me mandou uma mensagem texto perguntando onde eu estava. Estávamos em estados diferentes. Como sempre. Ele concreto e eu etérea ou vice versa. Já descobri que às vezes eu líquido e ele volátil. Mas a gente já se encontrou. Mas agora não tenho mais certeza se a gente existe. Aliás, não tenho certeza se ele existe. Pois, conforme disse, tenho certeza de que não existo. Alguém precisa de provas de que não existo? Tenho certeza mais do que absoluta de que não. Mas não vou agüentar a vontade de enumerar algumas provas de minha inexistência.
1) Esse texto não existe (bem como, textos anteriores não existiram). Sua imaginação anda lhe pregando peças e você acha que está lendo. Se tentar reler, vai descobrir que o que pensou ter lido não está mais lá. Aliás, isso tem acontecido sistematicamente comigo. Sempre que tento reler, o texto não está mais lá. Já é outro. Eu sou outra. O autor já me parece outro. Então, acho que eles também não existem. Autores e textos não existem. Opinião controversa. Uma vez que afirmativa vem de uma fonte não confiável, ou melhor, inexistente.
2) Eu não apareço em fotos. Alguns afirmam que já viram fotos minhas. Não é verdade. Se olharem bem, verão que a pessoa da foto não existe mais. Aliás, as pessoas das fotos nunca existem de fato. Deixaram de existir alguns milésimos de segundo depois de capturada da imagem. Nunca vi um retrato meu.
3) Ninguém nunca me ouviu. Pelas mesmas razões que nunca me viram. Há um tempo resolvi representar alguns papéis para que as pessoas tivessem a impressão de que existo. Mas, de fato, eram apenas personagens. Um monte deles. Alguns são interessantes e vez ou outra resolvo reapresentá-los. Já até consegui enganar alguns amantes, que juram que já treparam comigo. Impossível. Pura imaginação deles. De verdade devem ter transado uma idéia... Transas não existem. Pelo mesmo motivo da inexistência de autores, textos e passados. Idéias também não existem. Nem final para essa p(b)ostagem....
Reticências existem. Conheci várias delas. Todas muito minhas amigas. Também os ornitorrincos. Quanto aos economistas tenho lá minhas dúvidas...
1) Esse texto não existe (bem como, textos anteriores não existiram). Sua imaginação anda lhe pregando peças e você acha que está lendo. Se tentar reler, vai descobrir que o que pensou ter lido não está mais lá. Aliás, isso tem acontecido sistematicamente comigo. Sempre que tento reler, o texto não está mais lá. Já é outro. Eu sou outra. O autor já me parece outro. Então, acho que eles também não existem. Autores e textos não existem. Opinião controversa. Uma vez que afirmativa vem de uma fonte não confiável, ou melhor, inexistente.
2) Eu não apareço em fotos. Alguns afirmam que já viram fotos minhas. Não é verdade. Se olharem bem, verão que a pessoa da foto não existe mais. Aliás, as pessoas das fotos nunca existem de fato. Deixaram de existir alguns milésimos de segundo depois de capturada da imagem. Nunca vi um retrato meu.
3) Ninguém nunca me ouviu. Pelas mesmas razões que nunca me viram. Há um tempo resolvi representar alguns papéis para que as pessoas tivessem a impressão de que existo. Mas, de fato, eram apenas personagens. Um monte deles. Alguns são interessantes e vez ou outra resolvo reapresentá-los. Já até consegui enganar alguns amantes, que juram que já treparam comigo. Impossível. Pura imaginação deles. De verdade devem ter transado uma idéia... Transas não existem. Pelo mesmo motivo da inexistência de autores, textos e passados. Idéias também não existem. Nem final para essa p(b)ostagem....
Reticências existem. Conheci várias delas. Todas muito minhas amigas. Também os ornitorrincos. Quanto aos economistas tenho lá minhas dúvidas...
caçadora (revanche)
Ai ai... coisa estranha chegar em casa depois de um dia laborioso e encontrá-lo. Sempre frio, distante. E o pior: ele me quer. Sinto gastura e desejo, depois de tantos anos ele continua o mesmo, o mesmo a me lamber, o mesmo homem rude, um tanto grotesco. Depois do mesmo sexo inabitual, dormi. No dia seguinte voltei ao trabalho, me sentindo extraordinariamente sexy. E lá estava ele, meu chefe, olhando-me com olhos de homem peludo, mais quente que meu homem, porém senti-o além. Senti medo de tamanha apetência em minhas entranhas. Fugi. Mas estavam em todos os lados, esses homens malditos. Tarados!!! Desde então, caço-os, não para matar, mas comer.
Caçada
Cheguei cansada naquele dia. O expediente no escritório fora puxado. Mil pessoas para atender; telefone tocando todo o tempo. Aquilo estava se tornando um inferno. Com a demissão de duas colegas do setor, meu serviço dobrara. Contenção de despesas. O resto do pessoal, com medo de também perder o emprego, trabalhava pesado sem reclamar. Serões, horas-extras e suspensão das pausas para lanche amiudavam-se.
À noite, sentada sobre a cama, pensava numa maneira de me livrar daquele emprego ou, pelo menos, diminuir o cansaço e a chateação ao fim do dia. Resolvi tomar um banho.
Cumpri o ritual meticulosa e demoradamente. Despi-me com calma, abri a torneira do chuveiro e, enquanto a água gelada escorria sobre o corpo, ensaboei-me com movimentos circulares, fazendo muita espuma. O calor aos poucos foi sendo substituído por uma sensação de frescor e limpeza. Lembrei-me da propaganda do sabonete na televisão.
Terminado o banho, enxuguei-me e saí do banheiro. O corpo, ao menos, pode-se lavar. Senti-me mais animada. Afinal, todos têm suas rotinas e ninguém morre por isso. Penteei-me diante do espelho do quarto. Sentindo a falta do desodorante, voltei ao banheiro para procurá-lo.
Quando abri a porta, estaquei. Lá estava ele a um canto da parede. Enorme, viscoso, olhando-me. O sapo. Não era verde, como nos livros infantis; era preto, quase todo, apenas com miúdas bolas brancas espalhadas por toda a pele. Com os olhos fixos em mim, parecia sorrir. Um sorriso asqueroso e diabólico. Não se mexia. Não precisava. Seu olhar exercia fascinação e domínio suficientes para me manter paralisada.
Assim que consegui sair do torpor, gritei tudo o que meus pulmões permitiram e puxei a porta do banheiro, que bateu com um ruído seco. Corri para o quarto e comecei a chorar. Não conseguia me livrar daqueles olhos. Imaginava aquele bicho me olhando durante o banho. Quase podia sentir sua pele rugosa encostando-se à minha. A pele, gelada como a água do chuveiro. Entrei em desespero. Chorei até me desmanchar.
Adormeci exausta. Acordei ainda assustada, com a impressão de que alguém me espreitava. Fazia movimentos bruscos para os lados, como a surpreender algo que fosse me atacar. Tinha de ir ao trabalho. Quase agradeci a Deus por aquele emprego. Cheguei ao escritório mais cedo do que de costume. Cumprimentei mecanicamente o pessoal dos outros departamentos. Ao abrir a porta da minha sala, lá estava ele novamente, sobre minha mesa. O mesmo olhar, o mesmo sorriso. Parecia maior e mais brilhante. Saí aos trambolhões, tropeçando em tudo o que havia à minha frente.
Na rua, ainda sem direção, entrei no primeiro ônibus que vi. Atônita, desci em um lugar movimentado do centro da cidade. Quando pus o pé na calçada, eu o vi, grudado a um dos pilares do ponto de ônibus.
Comecei a correr novamente, esbarrando nas pessoas, sem vê-las, atravessando ruas sem prestar atenção aos semáforos. Ouvia as buzinas e os gritos dos motoristas, mas como ruídos distantes, que não faziam sentido. Só pensava em fugir.
Sem fôlego, parava às vezes para respirar. Cada parada aumentava o horror. Eu o via nos bancos dos carros, nas sacadas dos prédios, nas cadeiras dos restaurantes. As crianças o traziam, risonho, sobre as cabeças.
Corri até não mais poder. Já não sentia mais dores. Não sentia e não pensava em nada. Parei, no fim da tarde, em um banco de praça, já sem alma. Não sabia onde estava. Olhava ao redor e não via nada. Não sabia se ele estava por perto. Não me importava.
Dormi naquele banco a noite toda. Acordei com o sol batendo em meu rosto pela manhã. Todo o pânico havia desaparecido. Eu estava decidida. Não havia nenhum bicho por ali, mas eu sabia que os sapos estavam à espreita, prontos para atacar.
Hoje eu os caço. Larguei o emprego no escritório para me dedicar a essa atividade. A cada dia aprimoro-me no meu ofício. Matei milhares deles. Diuturnamente, eu os procuro. Foco-os com uma lanterna e, assim, despidos de seu olhar satânico, eles se tornam indefesos. Iluminados, e descoberta sua fragilidade, só podem ouvir o estampido da bala que os mata.
Já os encontrei nas ruas, bares, bancos. As lojas de departamento os escondem às centenas. Descobri vários deles em escolas, berçários e parques infantis. Eles invadem as igrejas e as casas. Não raro, encontram-se sob a roupa das pessoas.
Resolvi investir todo o meu tempo em seu extermínio. Alguém precisa livrar a humanidade. Procuro reforços.
À noite, sentada sobre a cama, pensava numa maneira de me livrar daquele emprego ou, pelo menos, diminuir o cansaço e a chateação ao fim do dia. Resolvi tomar um banho.
Cumpri o ritual meticulosa e demoradamente. Despi-me com calma, abri a torneira do chuveiro e, enquanto a água gelada escorria sobre o corpo, ensaboei-me com movimentos circulares, fazendo muita espuma. O calor aos poucos foi sendo substituído por uma sensação de frescor e limpeza. Lembrei-me da propaganda do sabonete na televisão.
Terminado o banho, enxuguei-me e saí do banheiro. O corpo, ao menos, pode-se lavar. Senti-me mais animada. Afinal, todos têm suas rotinas e ninguém morre por isso. Penteei-me diante do espelho do quarto. Sentindo a falta do desodorante, voltei ao banheiro para procurá-lo.
Quando abri a porta, estaquei. Lá estava ele a um canto da parede. Enorme, viscoso, olhando-me. O sapo. Não era verde, como nos livros infantis; era preto, quase todo, apenas com miúdas bolas brancas espalhadas por toda a pele. Com os olhos fixos em mim, parecia sorrir. Um sorriso asqueroso e diabólico. Não se mexia. Não precisava. Seu olhar exercia fascinação e domínio suficientes para me manter paralisada.
Assim que consegui sair do torpor, gritei tudo o que meus pulmões permitiram e puxei a porta do banheiro, que bateu com um ruído seco. Corri para o quarto e comecei a chorar. Não conseguia me livrar daqueles olhos. Imaginava aquele bicho me olhando durante o banho. Quase podia sentir sua pele rugosa encostando-se à minha. A pele, gelada como a água do chuveiro. Entrei em desespero. Chorei até me desmanchar.
Adormeci exausta. Acordei ainda assustada, com a impressão de que alguém me espreitava. Fazia movimentos bruscos para os lados, como a surpreender algo que fosse me atacar. Tinha de ir ao trabalho. Quase agradeci a Deus por aquele emprego. Cheguei ao escritório mais cedo do que de costume. Cumprimentei mecanicamente o pessoal dos outros departamentos. Ao abrir a porta da minha sala, lá estava ele novamente, sobre minha mesa. O mesmo olhar, o mesmo sorriso. Parecia maior e mais brilhante. Saí aos trambolhões, tropeçando em tudo o que havia à minha frente.
Na rua, ainda sem direção, entrei no primeiro ônibus que vi. Atônita, desci em um lugar movimentado do centro da cidade. Quando pus o pé na calçada, eu o vi, grudado a um dos pilares do ponto de ônibus.
Comecei a correr novamente, esbarrando nas pessoas, sem vê-las, atravessando ruas sem prestar atenção aos semáforos. Ouvia as buzinas e os gritos dos motoristas, mas como ruídos distantes, que não faziam sentido. Só pensava em fugir.
Sem fôlego, parava às vezes para respirar. Cada parada aumentava o horror. Eu o via nos bancos dos carros, nas sacadas dos prédios, nas cadeiras dos restaurantes. As crianças o traziam, risonho, sobre as cabeças.
Corri até não mais poder. Já não sentia mais dores. Não sentia e não pensava em nada. Parei, no fim da tarde, em um banco de praça, já sem alma. Não sabia onde estava. Olhava ao redor e não via nada. Não sabia se ele estava por perto. Não me importava.
Dormi naquele banco a noite toda. Acordei com o sol batendo em meu rosto pela manhã. Todo o pânico havia desaparecido. Eu estava decidida. Não havia nenhum bicho por ali, mas eu sabia que os sapos estavam à espreita, prontos para atacar.
Hoje eu os caço. Larguei o emprego no escritório para me dedicar a essa atividade. A cada dia aprimoro-me no meu ofício. Matei milhares deles. Diuturnamente, eu os procuro. Foco-os com uma lanterna e, assim, despidos de seu olhar satânico, eles se tornam indefesos. Iluminados, e descoberta sua fragilidade, só podem ouvir o estampido da bala que os mata.
Já os encontrei nas ruas, bares, bancos. As lojas de departamento os escondem às centenas. Descobri vários deles em escolas, berçários e parques infantis. Eles invadem as igrejas e as casas. Não raro, encontram-se sob a roupa das pessoas.
Resolvi investir todo o meu tempo em seu extermínio. Alguém precisa livrar a humanidade. Procuro reforços.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
Tentativa
Um homem caminhava sozinho pelas ruas do centro da cidade, sujo e com barba por fazer; as roupas gastas, mas sem rasgos ou remendos. Andava devagar, pensativo. Imaginava uma forma de arranjar mulher. Talvez ir a algum hotelzinho nos arredores da estação ferroviária ou, quem sabe, dar uns apertos, só para desafogar, ali mesmo, nos bancos da praça central, escondido pelos arbustos. Poderia ir até a outra praça, a da Igreja Matriz, que estava em reforma, cuja rua frontal transformara-se em passarela de prostitutas e travestis à procura de clientes. Mas não lhe agradava a idéia de pagar por uma mulher. Possuía dinheiro suficiente, mas preferia gastá-lo com bebida. Uma prostituta não fazia parte de seus planos. Resolveu caminhar mais.
Estava naquela cidade havia duas semanas e já se familiarizara com as ruas centrais. Hospedara-se em um hotel pequeno e muito sujo nas proximidades do terminal rodoviário e só ficava lá durante o dia, dormindo. À tardinha, saía para comprar cigarros e andar pela cidade. Voltava só pela manhã, depois de haver perambulado durante toda a noite. Nessa última tarde, não conseguira dormir. Sentia-se extremamente excitado. Precisava de mulher. Decidiu que à noite procuraria por uma.
Começou sua caminhada dessa noite pela rodoviária, mas logo se decepcionou, pois àquela hora só havia a turba de passageiros chegando e saindo da cidade. Mudou o trajeto. Foi parar perto da estação ferroviária, onde conheceu os hotéis que abrigavam casais de última hora para sexo rápido e pago. Viu que não conseguiria nada por aquelas bandas. Saiu dali e entrou em uma avenida arborizada e um pouco escura. Duas quadras acima, deparou-se com uma esquina mais iluminada, com semáforo, onde, à esquerda, erguia-se o prédio da faculdade católica. Tomava todo o quarteirão e era bastante irregular. Parecia ter sido construído aos poucos, cada parte ostentando arquitetura e idade distintas. Do lado oposto, várias lanchonetes, com mesas e cadeiras distribuídas pela calçada, apinhadas de jovens bebendo cerveja e refrigerante. Dirigiu-se a um dos bares e pediu uma cerveja ao garçom, um rapazinho magro que exibia sorridente sua intimidade com os freqüentadores.
Observou as moças que passavam. Calças apertadas e saias curtas, com pernas à mostra. Pensou que se estivesse limpo e barbeado poderia entabular conversa com alguma delas. Bobagem. Universitárias não lhe dariam atenção. Gostavam de se mostrar cultas e inteligentes e falavam demais. Melhor seria dar o fora daquele lugar. Aproveitando-se da distração do garçom, entretido numa conversa com os estudantes, levantou-se sem pagar a bebida e desapareceu na esquina.
Caminhava já desanimado pelo centro da cidade. Mais uma noite por aqui, pensava. Sem ter rumo certo, acabou voltando para os lados da faculdade. Passou pelo lado oposto ao dos bares e ainda viu os últimos estudantes deixando o prédio, que fechava os portões e se quedava silencioso e escuro. Novamente na rua dos hotéis, imaginou abordar alguma mulher e, em último caso, pagá-la.
Na parte escura da avenida, viu uma mendiga caída, completamente bêbada, emitindo sons ininteligíveis. Sem que ela protestasse, ergueu-a e fez com que apoiasse um dos braços em torno do seu pescoço. Virando a esquina, caminharam pela rua da estação, que terminava em um beco ermo e escuro, onde ele a soltou. Olhou-a demoradamente, indeciso ante desejo e repugnância. A mulher, caída ao chão, perguntou-lhe se tinha dinheiro.
Uma hora depois, algumas quadras adiante, no único bar aberto que avistou, pensava nos palavrões que a mulher lhe gritara e no cheiro ainda impregnado em suas roupas. Decidiu que um banho seria bom. Pediu uma dose de cachaça, bebeu-a de um gole e saiu. Voltou ao hotel onde se hospedara e ao se despir resolveu que no dia seguinte telefonaria aos homens que lhe arranjavam trabalho. Sempre tinham algum serviço para ele. Não era bom ficar muito tempo em um só lugar.
Estava naquela cidade havia duas semanas e já se familiarizara com as ruas centrais. Hospedara-se em um hotel pequeno e muito sujo nas proximidades do terminal rodoviário e só ficava lá durante o dia, dormindo. À tardinha, saía para comprar cigarros e andar pela cidade. Voltava só pela manhã, depois de haver perambulado durante toda a noite. Nessa última tarde, não conseguira dormir. Sentia-se extremamente excitado. Precisava de mulher. Decidiu que à noite procuraria por uma.
Começou sua caminhada dessa noite pela rodoviária, mas logo se decepcionou, pois àquela hora só havia a turba de passageiros chegando e saindo da cidade. Mudou o trajeto. Foi parar perto da estação ferroviária, onde conheceu os hotéis que abrigavam casais de última hora para sexo rápido e pago. Viu que não conseguiria nada por aquelas bandas. Saiu dali e entrou em uma avenida arborizada e um pouco escura. Duas quadras acima, deparou-se com uma esquina mais iluminada, com semáforo, onde, à esquerda, erguia-se o prédio da faculdade católica. Tomava todo o quarteirão e era bastante irregular. Parecia ter sido construído aos poucos, cada parte ostentando arquitetura e idade distintas. Do lado oposto, várias lanchonetes, com mesas e cadeiras distribuídas pela calçada, apinhadas de jovens bebendo cerveja e refrigerante. Dirigiu-se a um dos bares e pediu uma cerveja ao garçom, um rapazinho magro que exibia sorridente sua intimidade com os freqüentadores.
Observou as moças que passavam. Calças apertadas e saias curtas, com pernas à mostra. Pensou que se estivesse limpo e barbeado poderia entabular conversa com alguma delas. Bobagem. Universitárias não lhe dariam atenção. Gostavam de se mostrar cultas e inteligentes e falavam demais. Melhor seria dar o fora daquele lugar. Aproveitando-se da distração do garçom, entretido numa conversa com os estudantes, levantou-se sem pagar a bebida e desapareceu na esquina.
Caminhava já desanimado pelo centro da cidade. Mais uma noite por aqui, pensava. Sem ter rumo certo, acabou voltando para os lados da faculdade. Passou pelo lado oposto ao dos bares e ainda viu os últimos estudantes deixando o prédio, que fechava os portões e se quedava silencioso e escuro. Novamente na rua dos hotéis, imaginou abordar alguma mulher e, em último caso, pagá-la.
Na parte escura da avenida, viu uma mendiga caída, completamente bêbada, emitindo sons ininteligíveis. Sem que ela protestasse, ergueu-a e fez com que apoiasse um dos braços em torno do seu pescoço. Virando a esquina, caminharam pela rua da estação, que terminava em um beco ermo e escuro, onde ele a soltou. Olhou-a demoradamente, indeciso ante desejo e repugnância. A mulher, caída ao chão, perguntou-lhe se tinha dinheiro.
Uma hora depois, algumas quadras adiante, no único bar aberto que avistou, pensava nos palavrões que a mulher lhe gritara e no cheiro ainda impregnado em suas roupas. Decidiu que um banho seria bom. Pediu uma dose de cachaça, bebeu-a de um gole e saiu. Voltou ao hotel onde se hospedara e ao se despir resolveu que no dia seguinte telefonaria aos homens que lhe arranjavam trabalho. Sempre tinham algum serviço para ele. Não era bom ficar muito tempo em um só lugar.
quarta-feira, 11 de abril de 2007
vida internautica
Desde que aqui cheguei, estou assim, especialista. Sei de tudo; um pouco de ginecologia, um pouco sobre piscinas, algo sobre política, um tanto de nutrição, outro pouco sobre moda, arte, literatura... Tudo são sites, de tudo um pouco, sei nada... Mas que dá pra ficar maravilhado, isso dá... Além de poder fuxicar a vida dos outros, dou-me conta da decoração de Bali, dos desfiles da frança, que iogurte faz bem pra xoxota, e o caralho. (!) rs. Assim, sítio seguindo, de vez em quando dá vontade de comungar os últimos achados das últimas pesquisas. Agora o lance é a arquitetura, nessa feita, comunguemos meu novo achado e inspiração. Marcelo Ferraz. Sei pouco do homem, não sei como se parece, ou quantos cabelos tem. É um homem prático. Pero tem um livro pela Cosac e Naif (ó Piti, colega seu!), e trabalhou com uma arquiteta importante italiana que veio pro Brasil na década de 50. Tem me embevecido, e não me engana, não me contenta. Vou ter que comprar o livro. Ou uma casa.terça-feira, 10 de abril de 2007

Meninas! Descobri uma forma de ficar rica sem ter de participar do Big Brother. É só ganhar o prêmio Nobel de literatura. A gente embolsa - fácil, fácil - mais de 1 milhão de dólares. Foi a quantia (U$ 1.300.000) que recebeu o ganhador do Nobel de 2003, o escritor sul-africano J. M. Coetzee, presença confirmada na Flip desse ano. Que tal? A gente se une e, escrevendo sob um mesmo pseudônimo, começa a lançar uns livros, assim como quem não quer nada... Aposto que daqui a uns três anos já estaremos fazendo sucesso internacionalmente e seremos as mais novas (ou não) milionárias do país em uma década.
(Ai, ai, como me divirto)
segunda-feira, 9 de abril de 2007
Cela especial
As ruas estavam quase desertas. Àquela hora da madrugada, em dias de semana, a cidade ficava mesmo vazia. Os dois amigos andavam devagar, parando às vezes para olhar se alguém os acompanhava.
Ela, mais nervosa, apertava o passo de vez em quando, mas logo voltava ao ritmo anterior. O rapaz não aparentava nenhuma agitação. Dava passos largos e vagarosos. Às vezes inspirava o ar e o soltava de forma ostensiva, ruidosa. A amiga costumava dizer que ele “soprava o mundo”, num suspiro ao contrário.
Haviam combinado aquilo havia semanas. Passaram vários dias discutindo e planejando. A idéia partira dele, mas ela havia insistido na realização. Sondaram as ruas centrais da cidade e finalmente marcaram a data.
Chegaram à livraria combinada. Disfarçadamente olharam ao redor. Certificaram-se da ausência de outras pessoas na rua e entraram no corredor lateral da loja. Era um corredor comprido e escuro. No final, uma porta de madeira dava acesso à sala central.
Com um canivete e um cartão de plástico, ele tentava forçar a fechadura, enquanto ela observava a rua. Alguns minutos depois, ele conseguiu abrir a porta e rapidamente os dois entraram na livraria. Ficaram parados, ofegantes, alguns segundos, até que a respiração voltou ao normal. A luz da sala estava desligada, mas a iluminação que vinha da rua era suficiente para não tropeçarem. Aos poucos, seus olhos acostumaram-se à semi-escuridão e eles já se deslocavam com facilidade.
Ao lado da entrada, junto a uma das estantes, ela se deteve. Ele caminhou mais um pouco, indo até a estante do fundo da sala. Parou, embevecido, e passou a mão por alguns livros da prateleira mais alta. Seus dedos corriam delicadamente pelos volumes, como temendo feri-los. Parou, finalmente, num deles e somente com o indicador e o polegar retirou, com vagar e prazer, Schopenhauer da estante.
Enquanto ele alisava a capa do exemplar, ela já havia retirado cinco livros do lugar. Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Machado de Assis jaziam sobre uma mesa ao lado da estante. Estava cada vez mais nervosa. Sabia que não poderia levá-los todos, mas não conseguia decidir. De súbito, largou a seção de literatura brasileira e se dirigiu à estante vizinha. Correu os olhos durante alguns segundos e, na ponta dos pés, alcançou José Saramago na penúltima prateleira. Sorriu para a Jangada de Pedra.
Ficaram mais algum tempo passeando pela loja. Resolveram sair cada um com dois livros. Ele, carregando Schopenhauer e o Anjo Pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues. Ela levava José Saramago e o Amor Natural, do Drummond. Odiava Nelson Rodrigues.
De novo na rua, caminharam em direção à avenida central da cidade. Chegaram à praça sem problemas. Sentaram-se num banco de cimento e começaram a rir da empreitada. Ele se gabava de ter previsto a falta de segurança da livraria. “Quem iria querer roubar livros?” – costumava dizer. Ela lamentava não poder trazer mais volumes. Levantaram-se e caminharam pela avenida até os trilhos do trem. Ali se despediram e cada qual foi para sua casa.
Depois do sucesso da investida, outras se seguiram. Adquiriram habilidade para abrir portas e assaltaram mais três livrarias. Na quarta, saíram carregando cinco livros cada um. Já não se preocupavam com polícia ou coisa parecida, tal a facilidade dos furtos. Entraram até num sebo, onde ela conseguiu um exemplar antiqüíssimo de Os Sermões, de Vieira, e ele, uma das poucas traduções de Heidegger para o português.
Certo dia, porém, um dos jornais da cidade publicou uma nota sobre o estranho caso das livrarias. Como os dois não liam jornais locais, não tomaram conhecimento do fato. A matéria dizia que a polícia começaria a vigiar as lojas de livros.
Desavisados, fizeram mais um furto e despreocupadamente foram beber cerveja numa lanchonete próxima à praça central. A polícia os encontrou folheando Pascal e Zola. Foram pegos em flagrante.
Na delegacia, um policial encaminhou os dois para interrogatório. O delegado parecia se divertir com a situação. Dirigia-se aos dois com sorrisos irônicos. A moça exigiu advogado e cela especial. Tinha curso superior.
– E a mocinha é formada em quê? – perguntou o delegado.
– Letras.
– Que bonitinho! O garotão, aí, também é formado?
– Não, eu ainda estudo. Filosofia.
– Olha, só, galera! – dirigindo-se aos policiais – o boneco faz Filosofia. Que gracinha!
As risadas soaram por toda a sala do delegado.
– Rapazinho delicado!
– Não tem curso de macho na faculdade?
– Vai fazer “advogacia”, rapaz!
O delegado, ainda rindo, ordenou que o levassem dali:
– Leva o florzinha pra cela do fundo, junto com os dois grandões, que eu vou ver a situação da donzela aqui.
Depois, ordenou revista na casa dos dois. Em suas estantes, a prova dos outros furtos. Todos os livros foram apreendidos, até os que não haviam sido roubados.
Foi um escândalo. O rapaz era de família tradicional, descendente dos fundadores da cidade. Seu pai, jornalista e historiador famoso, fazia parte dos altos escalões do governo estadual. A moça, mais velha e de família pobre, foi acusada de tramar os assaltos e desencaminhar o pobrezinho.
Durante várias semanas, eles foram assunto principal da imprensa. Criou-se polêmica nacional. Na televisão, faziam pesquisas de rua. “O senhor acha que eles devem ficar presos?”. Um sociólogo importante, num programa de entrevistas, questionava “uma sociedade culturalmente falida, que não propicia saber e conhecimento à juventude”.
O âncora mais famoso da televisão vociferou que “um país onde jovens precisam roubar livros é vergonhoso!”. Um deputado federal, dono de programa de rádio, disse que “roubo é roubo; são ladrões, são dois vagabundos, têm de ficar é na cadeia!”.
A TV estatal fez uma reportagem sobre juventude e delinqüência, e a rede de televisão de maior audiência no país criou uma programação especial para o caso. “Eles devem ser punidos?”. Os telespectadores ligavam para a emissora e votavam. Os jornais diários tinham espaço reservado e até selo para o assunto.
Cantores de MPB fizeram um grande concerto pela liberdade dos acusados e a Liga das Senhoras pela Moralidade organizou uma passeata exigindo sua manutenção na cadeia.
Do exterior chegaram manifestações de apoio aos jovens. A representação norte-americana da Comissão de Direitos Humanos veio até o Brasil especialmente para analisar a situação. Grupos de teatro anarquistas manifestaram apoio. Partidos políticos discutiram acirradamente o assunto. O Green Peace e o Sting não se pronunciaram.
Finalmente, o inquérito chegou à fase judicial e os dois foram condenados. Por serem réus primários, puderam cumprir a pena em liberdade.
Hoje, os dois ainda moram na mesma cidade. Ainda saem juntos para tomar cerveja e têm os mesmos amigos. As famílias perdoaram o ocorrido. Estão mais tranqüilos agora, mas planejam novas investidas. Só estão esperando que ele termine o curso de Filosofia. Melhor garantir cela especial.
Ela, mais nervosa, apertava o passo de vez em quando, mas logo voltava ao ritmo anterior. O rapaz não aparentava nenhuma agitação. Dava passos largos e vagarosos. Às vezes inspirava o ar e o soltava de forma ostensiva, ruidosa. A amiga costumava dizer que ele “soprava o mundo”, num suspiro ao contrário.
Haviam combinado aquilo havia semanas. Passaram vários dias discutindo e planejando. A idéia partira dele, mas ela havia insistido na realização. Sondaram as ruas centrais da cidade e finalmente marcaram a data.
Chegaram à livraria combinada. Disfarçadamente olharam ao redor. Certificaram-se da ausência de outras pessoas na rua e entraram no corredor lateral da loja. Era um corredor comprido e escuro. No final, uma porta de madeira dava acesso à sala central.
Com um canivete e um cartão de plástico, ele tentava forçar a fechadura, enquanto ela observava a rua. Alguns minutos depois, ele conseguiu abrir a porta e rapidamente os dois entraram na livraria. Ficaram parados, ofegantes, alguns segundos, até que a respiração voltou ao normal. A luz da sala estava desligada, mas a iluminação que vinha da rua era suficiente para não tropeçarem. Aos poucos, seus olhos acostumaram-se à semi-escuridão e eles já se deslocavam com facilidade.
Ao lado da entrada, junto a uma das estantes, ela se deteve. Ele caminhou mais um pouco, indo até a estante do fundo da sala. Parou, embevecido, e passou a mão por alguns livros da prateleira mais alta. Seus dedos corriam delicadamente pelos volumes, como temendo feri-los. Parou, finalmente, num deles e somente com o indicador e o polegar retirou, com vagar e prazer, Schopenhauer da estante.
Enquanto ele alisava a capa do exemplar, ela já havia retirado cinco livros do lugar. Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Machado de Assis jaziam sobre uma mesa ao lado da estante. Estava cada vez mais nervosa. Sabia que não poderia levá-los todos, mas não conseguia decidir. De súbito, largou a seção de literatura brasileira e se dirigiu à estante vizinha. Correu os olhos durante alguns segundos e, na ponta dos pés, alcançou José Saramago na penúltima prateleira. Sorriu para a Jangada de Pedra.
Ficaram mais algum tempo passeando pela loja. Resolveram sair cada um com dois livros. Ele, carregando Schopenhauer e o Anjo Pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues. Ela levava José Saramago e o Amor Natural, do Drummond. Odiava Nelson Rodrigues.
De novo na rua, caminharam em direção à avenida central da cidade. Chegaram à praça sem problemas. Sentaram-se num banco de cimento e começaram a rir da empreitada. Ele se gabava de ter previsto a falta de segurança da livraria. “Quem iria querer roubar livros?” – costumava dizer. Ela lamentava não poder trazer mais volumes. Levantaram-se e caminharam pela avenida até os trilhos do trem. Ali se despediram e cada qual foi para sua casa.
Depois do sucesso da investida, outras se seguiram. Adquiriram habilidade para abrir portas e assaltaram mais três livrarias. Na quarta, saíram carregando cinco livros cada um. Já não se preocupavam com polícia ou coisa parecida, tal a facilidade dos furtos. Entraram até num sebo, onde ela conseguiu um exemplar antiqüíssimo de Os Sermões, de Vieira, e ele, uma das poucas traduções de Heidegger para o português.
Certo dia, porém, um dos jornais da cidade publicou uma nota sobre o estranho caso das livrarias. Como os dois não liam jornais locais, não tomaram conhecimento do fato. A matéria dizia que a polícia começaria a vigiar as lojas de livros.
Desavisados, fizeram mais um furto e despreocupadamente foram beber cerveja numa lanchonete próxima à praça central. A polícia os encontrou folheando Pascal e Zola. Foram pegos em flagrante.
Na delegacia, um policial encaminhou os dois para interrogatório. O delegado parecia se divertir com a situação. Dirigia-se aos dois com sorrisos irônicos. A moça exigiu advogado e cela especial. Tinha curso superior.
– E a mocinha é formada em quê? – perguntou o delegado.
– Letras.
– Que bonitinho! O garotão, aí, também é formado?
– Não, eu ainda estudo. Filosofia.
– Olha, só, galera! – dirigindo-se aos policiais – o boneco faz Filosofia. Que gracinha!
As risadas soaram por toda a sala do delegado.
– Rapazinho delicado!
– Não tem curso de macho na faculdade?
– Vai fazer “advogacia”, rapaz!
O delegado, ainda rindo, ordenou que o levassem dali:
– Leva o florzinha pra cela do fundo, junto com os dois grandões, que eu vou ver a situação da donzela aqui.
Depois, ordenou revista na casa dos dois. Em suas estantes, a prova dos outros furtos. Todos os livros foram apreendidos, até os que não haviam sido roubados.
Foi um escândalo. O rapaz era de família tradicional, descendente dos fundadores da cidade. Seu pai, jornalista e historiador famoso, fazia parte dos altos escalões do governo estadual. A moça, mais velha e de família pobre, foi acusada de tramar os assaltos e desencaminhar o pobrezinho.
Durante várias semanas, eles foram assunto principal da imprensa. Criou-se polêmica nacional. Na televisão, faziam pesquisas de rua. “O senhor acha que eles devem ficar presos?”. Um sociólogo importante, num programa de entrevistas, questionava “uma sociedade culturalmente falida, que não propicia saber e conhecimento à juventude”.
O âncora mais famoso da televisão vociferou que “um país onde jovens precisam roubar livros é vergonhoso!”. Um deputado federal, dono de programa de rádio, disse que “roubo é roubo; são ladrões, são dois vagabundos, têm de ficar é na cadeia!”.
A TV estatal fez uma reportagem sobre juventude e delinqüência, e a rede de televisão de maior audiência no país criou uma programação especial para o caso. “Eles devem ser punidos?”. Os telespectadores ligavam para a emissora e votavam. Os jornais diários tinham espaço reservado e até selo para o assunto.
Cantores de MPB fizeram um grande concerto pela liberdade dos acusados e a Liga das Senhoras pela Moralidade organizou uma passeata exigindo sua manutenção na cadeia.
Do exterior chegaram manifestações de apoio aos jovens. A representação norte-americana da Comissão de Direitos Humanos veio até o Brasil especialmente para analisar a situação. Grupos de teatro anarquistas manifestaram apoio. Partidos políticos discutiram acirradamente o assunto. O Green Peace e o Sting não se pronunciaram.
Finalmente, o inquérito chegou à fase judicial e os dois foram condenados. Por serem réus primários, puderam cumprir a pena em liberdade.
Hoje, os dois ainda moram na mesma cidade. Ainda saem juntos para tomar cerveja e têm os mesmos amigos. As famílias perdoaram o ocorrido. Estão mais tranqüilos agora, mas planejam novas investidas. Só estão esperando que ele termine o curso de Filosofia. Melhor garantir cela especial.
quinta-feira, 5 de abril de 2007
las meninas
numticnumtamnumticnumtamnumticnumtamnumticnumtam
Sabonete PHEBO
O que ou quais as representações e lembranças que temos ao ver e cheirar um sabonete?
Será que o uso de um ou outro simboliza algo para as pessoas? Ou elas compram por causa da fragância associado ao preço, ou aquele que ajudará na proteção da pele, tem hidratação, "isto ou aquilo?"
Será que há distinções entre gêneros? As mulheres compram tais e os homens outros tais? Ou independe de gênero e terá significado em cada ser da espécie humana? Neste caso, para aqueles que usam...
Só sei que ao olhar o sabonete da marca PHEBO, de base vegetal, de glicerina, 90g, odor de rosas, com a embalagem amarela e no centro um desenho oval em vermelho, lembra-me a minha infância. Quando eu acreditava, na fantasia de criança ensinada pela mãe que o sabonete PHEBO era símbolo de realeza, de pessoas abastadas, haja vista, que lá em casa nem o cheiro passava por perto. Para mim simbolizava algo que eu não tinha.
No entanto, ontem no supermercado, quando vi o sabonete PHEBO por R$1,45 não tive dúvidas peguei e cheirei aquele odor de rosas e viajei, por alguns segundos. E retornei de um tempo vivido. Comprei apenas dois.
Bem, aquele sabonete de odor de rodas, (odor?! de rosas?!), presente desde 1930 e com a embalagem amarela me fez lembrar que cresci e posso fazer escolhas, não só de sabonetes.
Aniversário feliz!
terça-feira, 3 de abril de 2007
é o que você pensa?

Não eram amigas, mas tinham amigos em comum. Volta e meia se encontravam, então. Nesse dia, um sábado, se sentaram uma de frente para a outra na mesa de um restaurante onde um amigo comemorava o aniversário. Cada uma com seu namorado, com seu vestido e com sua faixa no cabelo. Uma gargalhava, enquanto a outra sorria discreta. Não se olhavam direito, diretamente. Também não pareciam se importar com o que os outros pudessem pensar, afinal muitos ali não se conheciam bem, não trocavam mais que meia dúzia de palavras. O que pensam e sabem uma da outra não diz respeito a ninguém. Ou diz? Ou é isso exatamente? Serão as palavras e os gestos dos outros os motores para a relação das duas? Uma relação que não se concretiza é o que (não) existe. Isso, vá lá, não são elas que imaginam, sou eu. E eu, agora, imagino que a disputa silenciosa que travavam enquanto comiam entre os amigos (e que sempre travam quando dividem o mesmo espaço) é algo que vai além do físico. Não são só as pupilas dilatadas, não é só o suor que lhes molha as mãos. A cabeça a fervilhar inventado histórias, supondo o que aconteceu e/ou o que vai acontecer, tentando adivinhar o que a outra pensa é que deve importar na competição. Quem melhor dormir é a vencedora.
Só!
Ele fez assim: um sinal com a cabeça. Eu fiz o mesmo. Ele entendeu tudo, imediatamente. Os procedimentos foram padrão: torpedo com telefone, celular ida e volta, toca, não toca, atende, não atende, mais intermediários, garçon! meu coração gelado e o sangue quente, por favor! Ele pega assim: firme, forte, grande, másculo! Eu me entrego assim: quente, mole, doce, regada de vontade. Ele sabe, eu não escondo. Gosto assim, seguro e direto. Ele conhece o caminho, o jeito. Eu conheço a hora, e como! Ele vem assim, falando, pedindo uma deusa. Eu me dou assim, mulher comum, sem surpresas, sem pressa. Ele, alerta. Eu, aberta, pronta, só!
sexta-feira, 30 de março de 2007
O economista e o ornitorrinco
Um dia, eu li num livro que saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.
Li também que vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele. Acho que li também que o reencontro é quando senta do seu lado alguém que sempre esteve dentro de você.
Será que li mesmo tudo isso? Ah, li sim. Se tava escrito eu não sei... mas eu li, ah, isso sim. Li sim.
Tenho certeza. Certeza igual a que eu tenho agora... que se eu cair dessa corda...
Não vai acontecer nada comigo! Viram? Nada. Sabem por quê? Porque essa corda não existe.
Você acreditava na corda?
Tadinho. Pobre de quem acreditava. Pobre de quem não acredita.
Agora, por exemplo, olha ali. É ele mesmo. O ornitorrinco. Tem quatro patas, um bico e dentes quando pequeno. É peludo, mas as patas dianteiras são como asas. As traseiras tem esporões venenosos. Bota ovos, choca-os e depois amamenta os filhotes. Um estudioso ousou chamar essa criatura de animal horrível, feito com pedaços de outros animais. Já um senhor mais prudente insinuou que os outros animais é que são feitos de seus pedaçoes.
E olhem lá quem vem com ele, o economista... espécie singular. Esse sim muito complexo! Dever ser matamático, historiador, estadista, filósofo. Deve entender os símbolos e falar com palavras. Deve contemplar o particular nos termos genéricos e tocar o abstrato e o concreto na mesma revoada de pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado com objetivos futuros. Ele deve ser decidido e desinteressado com a mesma disposição; tão distante e incorruptível quanto um artista e ainda assim algumas vezes tão perto da terra quanto um político.
E vejam vocês como brincam... o economista e o ornitorrinco. Você consegue vê-los bem ali? Consegue?
Você acredita em ornitorrincos? Ou você só acredita no que vê?
Tudo bem! Você... tá vendo esse cara aqui, não tá? E só por isso você acredita nele? Ô... eu não arriscaria...
Tá, então vamos imaginar que você tem um amigo que vai embora, que vai embora amanhã. E aí, o que você faz? Você senta na frente dele, olha nos olhos dele e consegue ver o tamanho da saudade qque vai chegar? Você consegue enxergar, consegue?
Eu consigo! E é por isso que eu só acredito no que eu vejo. Porque meus olhos insistem em enxergar a palavra desenhada, a corda bamba, onitorrincos, economistas, amigo que vai embora, saudade que fica e vontade do reencontro.
Calma, calma... mas fiquem tranqüilos! Não vai acontecer nada. Essa história, assim como a corda, não existe!
Cena escrita para o amigo Amauri que seria encenada no dia de seua festa de despedida. Ele foi embora e eu não encenei. Achei os escritos passando as folhas de um caderno. Não faz muito sentido assim, em duas dimensões, mas decidi plantar de qualquer forma, vai que vira árvore, né?
Li também que vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele. Acho que li também que o reencontro é quando senta do seu lado alguém que sempre esteve dentro de você.
Será que li mesmo tudo isso? Ah, li sim. Se tava escrito eu não sei... mas eu li, ah, isso sim. Li sim.
Tenho certeza. Certeza igual a que eu tenho agora... que se eu cair dessa corda...
Não vai acontecer nada comigo! Viram? Nada. Sabem por quê? Porque essa corda não existe.
Você acreditava na corda?
Tadinho. Pobre de quem acreditava. Pobre de quem não acredita.
Agora, por exemplo, olha ali. É ele mesmo. O ornitorrinco. Tem quatro patas, um bico e dentes quando pequeno. É peludo, mas as patas dianteiras são como asas. As traseiras tem esporões venenosos. Bota ovos, choca-os e depois amamenta os filhotes. Um estudioso ousou chamar essa criatura de animal horrível, feito com pedaços de outros animais. Já um senhor mais prudente insinuou que os outros animais é que são feitos de seus pedaçoes.
E olhem lá quem vem com ele, o economista... espécie singular. Esse sim muito complexo! Dever ser matamático, historiador, estadista, filósofo. Deve entender os símbolos e falar com palavras. Deve contemplar o particular nos termos genéricos e tocar o abstrato e o concreto na mesma revoada de pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado com objetivos futuros. Ele deve ser decidido e desinteressado com a mesma disposição; tão distante e incorruptível quanto um artista e ainda assim algumas vezes tão perto da terra quanto um político.
E vejam vocês como brincam... o economista e o ornitorrinco. Você consegue vê-los bem ali? Consegue?
Você acredita em ornitorrincos? Ou você só acredita no que vê?
Tudo bem! Você... tá vendo esse cara aqui, não tá? E só por isso você acredita nele? Ô... eu não arriscaria...
Tá, então vamos imaginar que você tem um amigo que vai embora, que vai embora amanhã. E aí, o que você faz? Você senta na frente dele, olha nos olhos dele e consegue ver o tamanho da saudade qque vai chegar? Você consegue enxergar, consegue?
Eu consigo! E é por isso que eu só acredito no que eu vejo. Porque meus olhos insistem em enxergar a palavra desenhada, a corda bamba, onitorrincos, economistas, amigo que vai embora, saudade que fica e vontade do reencontro.
Calma, calma... mas fiquem tranqüilos! Não vai acontecer nada. Essa história, assim como a corda, não existe!
Cena escrita para o amigo Amauri que seria encenada no dia de seua festa de despedida. Ele foi embora e eu não encenei. Achei os escritos passando as folhas de um caderno. Não faz muito sentido assim, em duas dimensões, mas decidi plantar de qualquer forma, vai que vira árvore, né?
quinta-feira, 29 de março de 2007
Jorge
Tenho, queridos e queridas correspondentes, um compromisso com vocês: escrever meu romance “O Cortiço Revisitado”. No entanto, não encontro inspiração, principalmente porque não penso em outra coisa que não dívidas contraídas em momentos de total irresponsabilidade.
Peço-lhes as mais humildes desculpas por não ter cumprido a promessa. No entanto, tentarei sanar, pelo menos em parte, essa falha, por meio da descrição dos personagens da obra. Vamos por ordem de entrada no cortiço.
A primeira quitinete, ou apartamento, como insiste em dizer o proprietário, é ocupada por Jorge, funcionário de uma concessionária de automóveis na cidade-satélite. Jorge é branco, tem entre 35 e 40 anos, não mais, pele boa, cabelos curtos e lisos, brilhantes, muito negros, sem fios brancos. Bonito cabelo, assim como o dono, um belo homem, de estatura mediana, talvez uns 1,72m, não magro, cheinho, sem chegar a ser gordo. Em forma, para falar a verdade, já que caminha diariamente. Pernas grossas.
Jorge parece ter um bom cargo na concessionária e uma boa situação financeira. Sua quitinete, maior que as outras, está bem mobiliada, inclusive com uma boa cozinha, onde há itens como fogão, geladeira, forno de microondas e quetais. Ele também possui carro, um modelo recente, em excelente estado, turbinado e, aparentemente, com acessórios como aparelho de som, vidro elétrico e quejandos.
Vive sozinho e bem. Aos fins de semana, convida os outros moradores para uma cervejinha, almoços, jantares. Na verdade, duas moradoras do cortiço (que descreveremos mais tarde) fazem a comida, pois gostam muito dele. São de Minas Gerais, ele e elas, e se entendem bem. Nunca o vi trazer companhia diferente à quitinete.
Nos fins de semana, quando está com as amigas, tomando cerveja e preparando alguma comida, Jorge – que usa aparelho nos dentes e fala com a língua entre eles – gosta de ouvir música. De gosto eclético, tem, obviamente, suas preferências, entre elas, a versão original, em inglês, de "Festa no Apê", gravada no Brasil pelo cantor Latino. É uma das infalíveis, todos os sábados.
Descobri, num desses fins de semana com cerveja, que Jorge foi ator. Tentou até ser contratado por uma emissora de TV, já extinta, no Rio de Janeiro, onde residiu enquanto tentava a carreira artística. A conversa, no entanto, não evoluiu o suficiente para serem revelados os motivos da desistência de tal profissão e a mudança para Brasília.
Jorge se veste muito bem, excelentes calças, camisas e sapatos, arranjados entre si de maneira sóbria e formal, sem exageros. O cabelo curto e a roupa dão-lhe um ar viril só contrariado pela fala mole, a voz engasgada e os trejeitos com as mãos que costuma fazer quando arruma o cabelo. Bonito cabelo.
Apresentado o personagem, passaremos a chamá-lo, doravante, de Jorge, o viado.
Texto do período em que a autora viveu em Brasília. Registrava suas impressões da cidade em crônicas, por meio das quais mantinha correspondência com amigos e familiares. O original, manuscrito, foi encontrado nos escombros do (agora) célebre apartamento do SOF Norte, onde a autora se reunia com um grupo de amigas, com as quais fundou uma sociedade secreta de escritoras. Nessa época, iniciou sua obra-prima, “O Cortiço Revisitado”.
Peço-lhes as mais humildes desculpas por não ter cumprido a promessa. No entanto, tentarei sanar, pelo menos em parte, essa falha, por meio da descrição dos personagens da obra. Vamos por ordem de entrada no cortiço.
A primeira quitinete, ou apartamento, como insiste em dizer o proprietário, é ocupada por Jorge, funcionário de uma concessionária de automóveis na cidade-satélite. Jorge é branco, tem entre 35 e 40 anos, não mais, pele boa, cabelos curtos e lisos, brilhantes, muito negros, sem fios brancos. Bonito cabelo, assim como o dono, um belo homem, de estatura mediana, talvez uns 1,72m, não magro, cheinho, sem chegar a ser gordo. Em forma, para falar a verdade, já que caminha diariamente. Pernas grossas.
Jorge parece ter um bom cargo na concessionária e uma boa situação financeira. Sua quitinete, maior que as outras, está bem mobiliada, inclusive com uma boa cozinha, onde há itens como fogão, geladeira, forno de microondas e quetais. Ele também possui carro, um modelo recente, em excelente estado, turbinado e, aparentemente, com acessórios como aparelho de som, vidro elétrico e quejandos.
Vive sozinho e bem. Aos fins de semana, convida os outros moradores para uma cervejinha, almoços, jantares. Na verdade, duas moradoras do cortiço (que descreveremos mais tarde) fazem a comida, pois gostam muito dele. São de Minas Gerais, ele e elas, e se entendem bem. Nunca o vi trazer companhia diferente à quitinete.
Nos fins de semana, quando está com as amigas, tomando cerveja e preparando alguma comida, Jorge – que usa aparelho nos dentes e fala com a língua entre eles – gosta de ouvir música. De gosto eclético, tem, obviamente, suas preferências, entre elas, a versão original, em inglês, de "Festa no Apê", gravada no Brasil pelo cantor Latino. É uma das infalíveis, todos os sábados.
Descobri, num desses fins de semana com cerveja, que Jorge foi ator. Tentou até ser contratado por uma emissora de TV, já extinta, no Rio de Janeiro, onde residiu enquanto tentava a carreira artística. A conversa, no entanto, não evoluiu o suficiente para serem revelados os motivos da desistência de tal profissão e a mudança para Brasília.
Jorge se veste muito bem, excelentes calças, camisas e sapatos, arranjados entre si de maneira sóbria e formal, sem exageros. O cabelo curto e a roupa dão-lhe um ar viril só contrariado pela fala mole, a voz engasgada e os trejeitos com as mãos que costuma fazer quando arruma o cabelo. Bonito cabelo.
Apresentado o personagem, passaremos a chamá-lo, doravante, de Jorge, o viado.
Texto do período em que a autora viveu em Brasília. Registrava suas impressões da cidade em crônicas, por meio das quais mantinha correspondência com amigos e familiares. O original, manuscrito, foi encontrado nos escombros do (agora) célebre apartamento do SOF Norte, onde a autora se reunia com um grupo de amigas, com as quais fundou uma sociedade secreta de escritoras. Nessa época, iniciou sua obra-prima, “O Cortiço Revisitado”.
quarta-feira, 28 de março de 2007
extra! extra!
Ação entre amigas
As blogueiras do quintal de casa (http://quintal-de-casa.blogspot.com/) podem se considerar blogueiras de sucesso. Orientam-se pelo gosto de se expressar sobre tema qualquer e de qualquer maneira. Comentam e estimulam o trabalho umas das outras, trocam elogios, às vezes farpas discretas, outras nem tanto. Inegável que se trata de um blog ativo, "bostado" (como gostam de dizer as amigas) e comentado, na maioria das vezes por elas próprias. A metáfora escatológica, de fertilização do quintal, deve resultar em flores e hortaliças, graças ao bichinho da literatura que vez por outra vem picando (sic) as moças.
Eis, porém, que a solução se desdobra em problema, quando o veneno do tal bichinho passa a intervir na criação e no comentário. No universo literário, para algo ser bom, outros algos precisam ser ruins. Na expressão do mestre Antonio Candido, "é preciso muito estrume para que
nasça uma flor", e assim retornamos à metáfora escatológica do quintal. Mas entre amigos, em certo sentido, tudo "precisa" ser bom, mais por ser "de quem" que por ser o "que é". Daí a crítica velada nos comentários, expressa pelos comparativos (isso me lembra aquilo), pela mudança de assunto ou pelo simples silêncio. Afinal, julgamento dos mais cruéis é não merecer comentários.
Assim se desenrola a ação entre amigas, ora leve e despretensiosa, ora puramente jocosa, ora séria e intimista - o que acaba por ser um bom retrato do humor feminino. Se tiver continuidade e freqüência, o arquivo poderá resultar num rico retrato de uma amizade entre iguais (pois mulheres) diferentes (pois gerações e origens variadas). Fica porém o desafio de não se entregar à facilidade do chiste, nem à sedução das belas letras. Quem sabe, pensar com André Breton que "a
literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo".
Por: Marco Antônio Rino Rodrigues
As blogueiras do quintal de casa (http://quintal-de-casa.blogspot.com/) podem se considerar blogueiras de sucesso. Orientam-se pelo gosto de se expressar sobre tema qualquer e de qualquer maneira. Comentam e estimulam o trabalho umas das outras, trocam elogios, às vezes farpas discretas, outras nem tanto. Inegável que se trata de um blog ativo, "bostado" (como gostam de dizer as amigas) e comentado, na maioria das vezes por elas próprias. A metáfora escatológica, de fertilização do quintal, deve resultar em flores e hortaliças, graças ao bichinho da literatura que vez por outra vem picando (sic) as moças.
Eis, porém, que a solução se desdobra em problema, quando o veneno do tal bichinho passa a intervir na criação e no comentário. No universo literário, para algo ser bom, outros algos precisam ser ruins. Na expressão do mestre Antonio Candido, "é preciso muito estrume para que
nasça uma flor", e assim retornamos à metáfora escatológica do quintal. Mas entre amigos, em certo sentido, tudo "precisa" ser bom, mais por ser "de quem" que por ser o "que é". Daí a crítica velada nos comentários, expressa pelos comparativos (isso me lembra aquilo), pela mudança de assunto ou pelo simples silêncio. Afinal, julgamento dos mais cruéis é não merecer comentários.
Assim se desenrola a ação entre amigas, ora leve e despretensiosa, ora puramente jocosa, ora séria e intimista - o que acaba por ser um bom retrato do humor feminino. Se tiver continuidade e freqüência, o arquivo poderá resultar num rico retrato de uma amizade entre iguais (pois mulheres) diferentes (pois gerações e origens variadas). Fica porém o desafio de não se entregar à facilidade do chiste, nem à sedução das belas letras. Quem sabe, pensar com André Breton que "a
literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo".
Por: Marco Antônio Rino Rodrigues
terça-feira, 27 de março de 2007
Vestido cor-de-rosa
A funcionária desceu do ônibus e atravessou a rua. Rapidamente, subiu os três degraus que separavam a calçada do corredor da vila. Eram dez pequenos quartos, dispostos lado a lado. No fim do corredor, torneira e tanque coletivos. Além do pouco espaço, o barulho dos vizinhos era outro problema, mas aquela moradia era a mais barata que conseguira arrumar.
Desde adolescente morando sozinha na cidade, terminara o colegial já aos 22 anos. Prestara um concurso para um cartório e lá estava há dez anos. O serviço era enfadonho, mas estável. Não gostava de aventuras. O ambiente até que era bom. As colegas mostravam-se simpáticas. Todas casadas, falavam de marido e filhos durante quase todo o dia. Só ela se calava. Não se constrangia, entretanto.
Na verdade, o que mais a entristecia não era a falta de um marido ou de filhos, propriamente, mas a ausência de um grande amor. Era o que pensava, ao menos. Por isso, não invejava as companheiras. Elas tinham marido, mas não via nelas indícios de paixões devastadoras.
As fantasias românticas tomavam todo seu tempo livre. Quando não estava no trabalho, estava em seu quarto lendo algum livro. Geralmente lia romances açucarados, cujos autores ela julgava estadunidenses. Os amores e desventuras das heroínas fascinavam-na. Costumava imaginar-se no lugar delas. Demorava-se nas passagens que descreviam as roupas dos personagens, principalmente em festas. Fixava-se nos detalhes e reproduzia mentalmente os vestidos descritos. Pensava em si mesma vestida daquela maneira.
Naquela noite, após chegar do trabalho, pegou avidamente o romance que começara na véspera. Colocou um cinzeiro no braço da pequena poltrona que havia no quarto e começou a ler.
O iate luxuoso, as jóias reluzentes, a decoração suntuosa, tudo que o romance barato descrevia fazia parte de seu mundo então. Ao som de uma orquestra, os casais dançavam, inebriados. Num instante, via-se como a heroína da história, num vestido cor-de-rosa. Vestido e cabelo esvoaçavam ao vento. Deliciava-se a cada palavra do herói, que, sobre a proa do navio, tomava-lhe as pontas do vestido nas mãos. Tecido e pessoa eram um só ser, sentia-se diáfana.
Sem querer, esbarrou no cinzeiro, que caiu ao chão, espalhando cinzas sobre um par de calças compridas brancas meticulosamente dobrado sobre uma almofada. O incidente arrancou-a ao devaneio.
Fechou o livro, pegou as calças e as espanejou delicadamente com as costas da mão para que as cinzas caíssem sem manchá-las. Era a única roupa disponível para o dia seguinte. Prometeu a si mesma que compraria algumas peças de roupa com o próximo salário.
Depositou as calças agora sobre as costas da poltrona e novamente abriu o livro. Voltou à leitura, mas não ao sonho. A imagem das calças misturava-se à dos vestidos. Não conseguia sequer fixar-se no enredo. Pensou na repartição. Papéis e carimbos tomavam o lugar dos olhares e sussurros enamorados. Lembrou-se de um processo cujo andamento estava atrasado. Precisava concluí-lo o quanto antes.
Deitou-se já sem sonhos e dormiu logo. Raro ter insônia. No dia seguinte, acordou mais cedo que de costume. Preparou café e o tomou lentamente enquanto fumava um cigarro. Vestiu-se e saiu à rua. Logo subiu no ônibus e chegou ao local de trabalho.
Sobre a mesa, o processo atrasado. Tinha quatro volumes e estava empilhado a um canto. Sentou-se e começou a folheá-lo. Quando estendeu a mão para pegar um carimbo, derrubou um tubo de tinta azul sobre o colo. Dessa vez o estrago foi irreversível. As pernas das calças mancharam-se de azul. Malditas calças brancas. Jurou que da próxima vez compraria calças jeans.
Desde adolescente morando sozinha na cidade, terminara o colegial já aos 22 anos. Prestara um concurso para um cartório e lá estava há dez anos. O serviço era enfadonho, mas estável. Não gostava de aventuras. O ambiente até que era bom. As colegas mostravam-se simpáticas. Todas casadas, falavam de marido e filhos durante quase todo o dia. Só ela se calava. Não se constrangia, entretanto.
Na verdade, o que mais a entristecia não era a falta de um marido ou de filhos, propriamente, mas a ausência de um grande amor. Era o que pensava, ao menos. Por isso, não invejava as companheiras. Elas tinham marido, mas não via nelas indícios de paixões devastadoras.
As fantasias românticas tomavam todo seu tempo livre. Quando não estava no trabalho, estava em seu quarto lendo algum livro. Geralmente lia romances açucarados, cujos autores ela julgava estadunidenses. Os amores e desventuras das heroínas fascinavam-na. Costumava imaginar-se no lugar delas. Demorava-se nas passagens que descreviam as roupas dos personagens, principalmente em festas. Fixava-se nos detalhes e reproduzia mentalmente os vestidos descritos. Pensava em si mesma vestida daquela maneira.
Naquela noite, após chegar do trabalho, pegou avidamente o romance que começara na véspera. Colocou um cinzeiro no braço da pequena poltrona que havia no quarto e começou a ler.
O iate luxuoso, as jóias reluzentes, a decoração suntuosa, tudo que o romance barato descrevia fazia parte de seu mundo então. Ao som de uma orquestra, os casais dançavam, inebriados. Num instante, via-se como a heroína da história, num vestido cor-de-rosa. Vestido e cabelo esvoaçavam ao vento. Deliciava-se a cada palavra do herói, que, sobre a proa do navio, tomava-lhe as pontas do vestido nas mãos. Tecido e pessoa eram um só ser, sentia-se diáfana.
Sem querer, esbarrou no cinzeiro, que caiu ao chão, espalhando cinzas sobre um par de calças compridas brancas meticulosamente dobrado sobre uma almofada. O incidente arrancou-a ao devaneio.
Fechou o livro, pegou as calças e as espanejou delicadamente com as costas da mão para que as cinzas caíssem sem manchá-las. Era a única roupa disponível para o dia seguinte. Prometeu a si mesma que compraria algumas peças de roupa com o próximo salário.
Depositou as calças agora sobre as costas da poltrona e novamente abriu o livro. Voltou à leitura, mas não ao sonho. A imagem das calças misturava-se à dos vestidos. Não conseguia sequer fixar-se no enredo. Pensou na repartição. Papéis e carimbos tomavam o lugar dos olhares e sussurros enamorados. Lembrou-se de um processo cujo andamento estava atrasado. Precisava concluí-lo o quanto antes.
Deitou-se já sem sonhos e dormiu logo. Raro ter insônia. No dia seguinte, acordou mais cedo que de costume. Preparou café e o tomou lentamente enquanto fumava um cigarro. Vestiu-se e saiu à rua. Logo subiu no ônibus e chegou ao local de trabalho.
Sobre a mesa, o processo atrasado. Tinha quatro volumes e estava empilhado a um canto. Sentou-se e começou a folheá-lo. Quando estendeu a mão para pegar um carimbo, derrubou um tubo de tinta azul sobre o colo. Dessa vez o estrago foi irreversível. As pernas das calças mancharam-se de azul. Malditas calças brancas. Jurou que da próxima vez compraria calças jeans.
segunda-feira, 26 de março de 2007
É assim, simples...
Os astros decidem, pré-escrevem, a gente vira só um brinquedo do destino. D másculo. Um presente do divino. D másculo, de novo. Como começa esta história, não sei. Falta-me conhecimento para entender o que vem primeiro: o desejo ou o destino? Fui eu quem desejou assim? A idéia foi concebida por mim? Fui eu quem fiz acontecer assim? Aí, simples, assim, um dia eu ouço dizer que existe alguém no mundo que não tem frescuras nos modos. Vou ver, acho um homem nobre nas atitudes. Adoro atitudes nobres, adoro delicadeza e mansidão. Chega em minha casa, dou-lhe licença, pode entrar, preciso de ajuda, mas é perigoso. Você tem fogo? Assim, simples e direto. O mundo simbólico é assim, tem fogo? Então, me tira dessa virgindade madura, grudenta, apática. Vem, me põe nua, sem mentira, com língua! Vem, encosta, quente, doce, macio! Assim, simples, nem precisa falar, é só sentir e perceber que é bom ficar quieto juntos, fazer nada na tarde modorrenta e morrer de delícia no calor do fogo brando. Simples assim, nos olhamos e vimos nossa saudade de um tempo caseiro, latido de cães, passarinhos em algazarra, lava-pés na bacia, viagem de carro na madrugada, recolhe o rabo e fecha a porta. Vimos nosso deleite no cheiro de criança morna, fresca como pão, na cama de manhã, se abrindo em sol. Vimos o êxtase da alvorada, nus, na soleira do verde quintal. Simples assim. Café, pão, manteiga, fruta fresca e jornal. Notícias do que fomos, confidências do que somos. Uma intimidade a céu aberto, solta nas águas termominerais. Simples assim. É só chamar que eu vou. Fico bem perto, sem problema, sem reclamação, sem rebeldia, sem palavrão, sem resistência de oposição. Vou fluindo, me sentindo bem, à vontade para ser o que ainda não fui sem me perder de mim. Aprender o que não aprendi, talvez seja a lição que resta neste fim de festa. Simples.
sexta-feira, 23 de março de 2007

Lembra dos bancos coloridos da pré-escola? E do parquinho? Tinha um parquinho, claro. E um menino que jogava areia nos outros colegas. Tinha uma tia, ou duas. Uma era boazinha, protegia, a outra deixava todo mundo de castigo, uma Raquel da vida. Na saída, vinha a kombi nos buscar. E aí era aquela briga: as meninas queriam ir na frente com o tio que dirigia e os guris disputavam o último banco, aquele mais alto no fundão. Todos instalados, um puxava o coro das musiquinhas que só os mais velhos entendiam (será que entendiam?) : “Entrei no ônibus / esbarrei na manivela / cobrador filho da puta / me jogou pela janela” - O que é 'filhadaputa'?, perguntava depois em casa. O engraçado é que não perguntava o que era 'manivela'. Sempre tinha um que trancava os dedos na porta da kombi. E sempre tinha um que o tio esquecia de entregar: “Ô, Cleber! Tu ainda taí? Onde é que tu moras mesmo?”. E quando a kombi estragava e o tio socava a piazada toda na Belina dele? Ô, diversão! Diversão também era festa junina. Na escola e em casa, festa junina de aniversário. Neguinho queimava os fundilhos pulando fogueira no quintal de terra, comia pinhão, pipoca e amendoim, dançava quadrilha e tomava quentão, que um adulto dava e outro confiscava. Cada vez que sinto cheiro de quentão (de vinho, é claro, que esse troço com cachaça na minha terra não existe), lembro da minha infância na casa do Roçado – bairro de São José, cidade vizinha de Florianópolis. Lembro do abacateiro enorme que tinha no quintal, onde a gente amarrava uma corda e se pendurava. Os irmãos me empurravam e eu parecia que ia voar. Voava mesmo, até. Qual criança não voa? Até que provem o contrário, eu voei o suficiente para dar umas três voltas ao mundo.
quinta-feira, 22 de março de 2007
Prazer em conhecer

Já se conheciam. Entre uma das muitas vezes em que os reapresentaram (as pessoas sempre achavam que eles ainda não se conheciam), trocaram cartões de visita. Na verdade, já tinham sido apresentados um ao outro algumas vezes, mas não tinha passado do "Muito prazer" "O prazer é meu". Assim continuaram sendo reapresentados pelas pessoas que, inimaginavelmente, eram comuns a ambas as vidas. Por um período trabalharam na mesma instituição. Setores diferentes. Já haviam transado algumas vezes. Mas, continuavam a ser, ocasionalmente, apresentados um ao outro pelos colegas. De vez em quando alguém dizia “Cara! Tenho que te apresentar fulana. Ela tem tudo a ver contigo”. E, no boteco, quando ela chegava, o tal amigo os apresentava novamente. A resposta continuava a mesma, porém agora, de vez em quando, escapava um sorrisinho depois do infalível "Muito prazer" "O prazer é meu". Já ia nascer o filho. Resolveram não morar junto. Ela pediu licença do trabalho, entrou clandestina na Irlanda onde ficou até bem perto do final dessa história. Ele mudou de profissão. Abriu um ateliê de construção de móveis, depois uma pousada no litoral do Espírito Santo, depois uma lan house, depois isso e aquilo. Na banca de jornais da vizinhança ela esbarrou em um sujeito que tinha lá seu charme. Depois do lanche na carrocinha de cachorro quente em frente à banca, enfim, se apresentaram.
Vitrine

O cinema de semana passada foi o entorpecente para aliviar o que sinto, as indecisões, as ilusões. Preciso ficar comigo! Preciso chorar e muito! E não precisa de um porque. É só soltar. E eu tenho esse direito!
Não quero ser outra vez usada. Não quero me sentir apenas Carne, uma peça exposta na vitrine do açougueiro e ser comida como a refeição de final de semana.
Enquanto isso, assisto "A Casa do Lago", os malabares, os saltos triplos e os tecidos coloridos do circo noturno...
março 2006
quarta-feira, 21 de março de 2007
mais canetas

Tinha gosto por recados. Morava sozinho e tudo o que precisava fazer, tudo o que precisava lembrar, deixava anotado em folhinhas espalhadas pelo apartamento. Não que fosse uma necessidade, já que tinha ótima memória, mas gostava fazer suas anotações. Era como um diário ou, melhor, uma pessoa que dividia a moradia e a vida com ele. Seu cúmplice de todos os dias e de seus acontecimentos sem graça.
À noite, quando chegava da rua, lia todos os recados, jogava-os fora e escrevia outros - todos inúteis e indignos de serem transcritos. Uma vez ou outra tinha espasmos de sair daquela rotina e escrevia belos bilhetes, com imagens de um mundo que não conhecia, mas sabia retratar. Alguns dias apareciam recados tão sentimentais que lhe davam a impressão de que não fora ele quem os escrevera.
Perguntou a si mesmo se não haveria realmente alguém dividindo o apartamento com ele.
E foi nesse momento que começou a responder seus bilhetes. Escrevia numa folha amarela sobre o trabalho e numa azul dava conselhos de como se comportar com os colegas de trabalho – que o detestavam. Escrevia sobre as notícias do telejornal e respondia com ataques a sua apatia diante das questões que incomodavam o mundo. Começou a brigar através das folhinhas coloridas. Chegou a pensar na morte. Não, não na dele, na daquele que vivia nos recados. Aquele que lhe dava idéias bobas, que queria amolecer seu coração e abrir seus olhos para o que se passava além do elevador do seu prédio. Passou a rasgar os bilhetes do outro. Continuava escrevendo e se afligindo, depois picava tudo e via os pedaços de papel indo embora com a descarga do banheiro.
Não tinha jeito, não conseguia se desligar das folhinhas. E começou a notar que mudanças aconteceram. Se pegava conversando com estranhos no ônibus, fazendo 'festinha' no cachorro do vizinho, saindo para tomar cerveja com o pessoal do trabalho, cantando as moças na praça... Praça? Antes do outro, nem à praça ele ia. Não ia ao cinema, não gostava de crianças, nem ao menos assoviar ele sabia.
Viveu numa redoma até que o outro começou a operar uma transformação na sua cabeça. E a transformação foi tamanha que, certo dia, declarou-se apaixonado. Apaixonado por aquele outro que vivia nos bilhetes e dentro dele. As folhinhas, as vermelhas, foram recebendo recados cada vez mais passionais. Ele não via saída para aquela situação; o que fazer para livrar-se de si mesmo? Resolveu que precisava silenciar sua voz – e jogar fora suas canetas.
Um pecado capital
Tenho passado os últimos tempos com um desejo senão estranho, um tanto quanto peculiar: arrebata-me diariamente a vontade de engolir o mundo. Para meu azar, digo isso sem nenhuma força de expressão ou figura de linguagem. O desejo é de comer mesmo, mastigar bem e sentir o mundo inteiro passar pelo meu trato intestinal.
No começo, não era nada assim de chamar atenção. Coisas miudinhas, pequeninas, que qualquer um engole: lápis, grampo, colar. Nada grave. Achei que passasse rápido.
Dei por conta que a coisa piorava há 3 semanas, quando inesperadamente senti uma salivação excessiva em conversa ao telefone. O fato nada se relacionava com o receptor da mensagem, mas com o próprio canal. Então, sem nem ao menos despedir do meu interlocutor, comi o telefone. Satisfação imediata e episódio esquecido, ou melhor, quase esquecido. Tive de retomá-lo na compra no novo aparelho, no dia seguinte. Foi inevitável solicitar à atendente o modelo menos apetitoso disponível.
Passados 2 dias, novo indício da minha gula mundial. Dessa vez, foi a rede pendurada na minha varanda. Foi quase uma refeição, utilizei guarfo e faca e fiz questão das 32 mastigadas. O prazer foi tanto que pensei que seria a última coisa a engolir na vida. Ilusão a minha! Ainda no tempo sugerido para sobremesa, pulou na minha frente um jogo completo de xadrez. Torres, cavalos, reis, rainhas, peões... todos de uma vez só.
Desde então, confesso que desconheço a saciedade. Preocupei-me muito no príncipio. Agora, estou mais tranqüila, bem mais tranqüila. Sei, por exemplo, que o que sinto não é fome. É puro desejo, capricho bem tinhoso, gula mesmo. Isso me deixou mais aliviada, bem mais aliviada. Sei também que a vontade não é pela coisa em si, é pela sua existência. Só como, então, a realidade. Nossa! Isso me deixou contente, muito contente. Por fim, descobri que faço a digestão de quase tudo, mesmo que demore um tempo maior do que o esperado. Ah, isso me deu mais prazer ainda de comer o mundo!
segunda-feira, 19 de março de 2007
Memórias de uma foca
Capítulo I
Tudo começou em 1995. Começar com tudo começou é horrível, mas como é uma foca que escreve, perdoa-me, caro leitor. Caro leitor tampouco é expressão jornalística – é coisa de Machado de Assis. E tem outro inconveniente: a dupla pretensão. A primeira é achar que terei leitor; a segunda, usar coisa de Machado de Assis.
Mas continuemos. Para uma principiante, eu já estava bem velhinha. Como nasci em 64, contava na época com 30 anos. Não te apresses em fazer contas, leitor. Sou de dezembro. Os fatos da narrativa se iniciam em abril, portanto, faltavam oito meses para 31. Vá lá: 30 anos e quatro meses, se queres exatidão. De todo jeito, balzaca.
Pois bem. Nesse malfadado ano, meu amigo Oscar – jornalista, formado, com diploma e carteirinha – chamou-me para trabalhar num semanário de que era editor. Ainda não expliquei que sou formada em Letras, pelas gloriosas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (hoje Universidade Católica Dom Bosco), e até então só havia cursado um semestre de Comunicação Social na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Mesmo assim, Oscar insistiu em me levar para seu jornal.
Devo abrir parênteses aqui para confessar que esse meu amigo era encantado com minha capacidade intelectual. Sim, é verdade. Não penses que o encanto era devido a outros dotes, talvez mais palpáveis, que eu possa ter. Oscar não é disso. E também meus atributos físicos não são lá essas coisas. O verdadeiro fascínio que Oscar tinha por meu potencial – repito, intelectual – derivava basicamente de dois fatores.
O primeiro era a total falta de intimidade que ele mantinha com a língua portuguesa. Tão inculto quanto, mas não tão belo, meu amigo era alérgico à gramática da última flor do Lácio. Os longos e difíceis anos de convivência não foram suficientes para o convencer de que a crase é um fenômeno, não um acento gráfico, que não ocorre diante de palavras masculinas e verbos, já que não vêm precedidos por artigo definido feminino. Tocar no assunto empipocava-lhe o corpo. Meus conhecimentos morfológicos, sintáticos e ortográficos, então, assumiam, diante de seus olhos, grandiosidade que não têm.
O outro motivo, menos honroso, que fazia com que meus textos de comportada correção e nenhuma ousadia formal lhe parecessem pérolas era minha arrogância quase sem precedentes na história da humanidade. Eu adorava lhe explicar questões de gramática de uma maneira pedante o suficiente para ninguém entender, quanto mais ele, que já não se dava bem com o assunto.
Por conta disso, considerando que eu era um expoente da arte de escrever, Oscar levou-me para o tal hebdomadário – além de incompreensíveis explicações gramaticais, eu também era dada a palavras inusuais do vernáculo. Foi assim que iniciei minha vida de foca, cujos episódios passo a lhe narrar, caro(a) leitor(a). Agora, com a inclusão politicamente correta do gênero feminino no vocativo. Os tempos pedem.
Tudo começou em 1995. Começar com tudo começou é horrível, mas como é uma foca que escreve, perdoa-me, caro leitor. Caro leitor tampouco é expressão jornalística – é coisa de Machado de Assis. E tem outro inconveniente: a dupla pretensão. A primeira é achar que terei leitor; a segunda, usar coisa de Machado de Assis.
Mas continuemos. Para uma principiante, eu já estava bem velhinha. Como nasci em 64, contava na época com 30 anos. Não te apresses em fazer contas, leitor. Sou de dezembro. Os fatos da narrativa se iniciam em abril, portanto, faltavam oito meses para 31. Vá lá: 30 anos e quatro meses, se queres exatidão. De todo jeito, balzaca.
Pois bem. Nesse malfadado ano, meu amigo Oscar – jornalista, formado, com diploma e carteirinha – chamou-me para trabalhar num semanário de que era editor. Ainda não expliquei que sou formada em Letras, pelas gloriosas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (hoje Universidade Católica Dom Bosco), e até então só havia cursado um semestre de Comunicação Social na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Mesmo assim, Oscar insistiu em me levar para seu jornal.
Devo abrir parênteses aqui para confessar que esse meu amigo era encantado com minha capacidade intelectual. Sim, é verdade. Não penses que o encanto era devido a outros dotes, talvez mais palpáveis, que eu possa ter. Oscar não é disso. E também meus atributos físicos não são lá essas coisas. O verdadeiro fascínio que Oscar tinha por meu potencial – repito, intelectual – derivava basicamente de dois fatores.
O primeiro era a total falta de intimidade que ele mantinha com a língua portuguesa. Tão inculto quanto, mas não tão belo, meu amigo era alérgico à gramática da última flor do Lácio. Os longos e difíceis anos de convivência não foram suficientes para o convencer de que a crase é um fenômeno, não um acento gráfico, que não ocorre diante de palavras masculinas e verbos, já que não vêm precedidos por artigo definido feminino. Tocar no assunto empipocava-lhe o corpo. Meus conhecimentos morfológicos, sintáticos e ortográficos, então, assumiam, diante de seus olhos, grandiosidade que não têm.
O outro motivo, menos honroso, que fazia com que meus textos de comportada correção e nenhuma ousadia formal lhe parecessem pérolas era minha arrogância quase sem precedentes na história da humanidade. Eu adorava lhe explicar questões de gramática de uma maneira pedante o suficiente para ninguém entender, quanto mais ele, que já não se dava bem com o assunto.
Por conta disso, considerando que eu era um expoente da arte de escrever, Oscar levou-me para o tal hebdomadário – além de incompreensíveis explicações gramaticais, eu também era dada a palavras inusuais do vernáculo. Foi assim que iniciei minha vida de foca, cujos episódios passo a lhe narrar, caro(a) leitor(a). Agora, com a inclusão politicamente correta do gênero feminino no vocativo. Os tempos pedem.
domingo, 18 de março de 2007
Escritos
Quantas vezes navegastes em meus sonhos! E agora chegais ao meu despertar que é meu sonho mais profundo (K.G.Khalil).
Estava procurando uns textos antigos. Tinha certeza que já havia escrito algo legal sobre aquele tema. Não achei. Acabei lendo uma coisa e outra e descobrindo que não mais reconhecia os textos como meus. Eles nem eram tão bons como achei na época. Todos bem pretenciosos. Coisas da graduação, da pós-graduação e sem graduação. Os desgraduados eram um tantinho melhores do que os demais. Fiquei me perguntando porque diabos guardei essa papelada. Podia ter reciclado. Feito barquinhos de papel para brincar na enxurrada com meus sobrinhos (ops! iria poluir o córrego com uma esquadra de celulose e alegria infantil). Queimado na fogueira no dia de São João ou ajudado a atear o fogo da churrasqueira nos finais de semana. Idéias não faltam. É melhor parar por aqui. Mas, enfim, o fato é que guardei os tais escritos. E eles agoram vêm me incomodar. Provas incontestáveis de um talento mediano (eufemismo para medíocre). Mas pior do que os acadêmicos, eram os particulares. Ah! Esses às vezes eram sinceros, doces, não raro ingênuos. Coisa que não se devia guardar. Nem sequer escrever. Mania essa de ir se largando pelo tempo. Para esses, ainda, um sorriso indulgente: "Boba essa menina! Continua boba e escrevendo".
Estava procurando uns textos antigos. Tinha certeza que já havia escrito algo legal sobre aquele tema. Não achei. Acabei lendo uma coisa e outra e descobrindo que não mais reconhecia os textos como meus. Eles nem eram tão bons como achei na época. Todos bem pretenciosos. Coisas da graduação, da pós-graduação e sem graduação. Os desgraduados eram um tantinho melhores do que os demais. Fiquei me perguntando porque diabos guardei essa papelada. Podia ter reciclado. Feito barquinhos de papel para brincar na enxurrada com meus sobrinhos (ops! iria poluir o córrego com uma esquadra de celulose e alegria infantil). Queimado na fogueira no dia de São João ou ajudado a atear o fogo da churrasqueira nos finais de semana. Idéias não faltam. É melhor parar por aqui. Mas, enfim, o fato é que guardei os tais escritos. E eles agoram vêm me incomodar. Provas incontestáveis de um talento mediano (eufemismo para medíocre). Mas pior do que os acadêmicos, eram os particulares. Ah! Esses às vezes eram sinceros, doces, não raro ingênuos. Coisa que não se devia guardar. Nem sequer escrever. Mania essa de ir se largando pelo tempo. Para esses, ainda, um sorriso indulgente: "Boba essa menina! Continua boba e escrevendo".
quinta-feira, 15 de março de 2007
Louvor, graça e distinção

Olá meninas,
Demorei para aparecer pois estava gravando os últimos capítulos da novela "Sangre, Sudor e Xerox". Neste grande sucesso, a mocinha (euzinha...) é perseguida implacavelmente por uma tese maldosa cheia de páginas e por seus fiéis e desatentos operadores de máquinas de xerox....
Vocês provavelmente nunca assistiram, mas foi um recorde de público e ficou 6 anos no ar na Ciudad del Uspê, uma província mui fértil e mui longínqua de Desarrollo.
Demorei para aparecer pois estava gravando os últimos capítulos da novela "Sangre, Sudor e Xerox". Neste grande sucesso, a mocinha (euzinha...) é perseguida implacavelmente por uma tese maldosa cheia de páginas e por seus fiéis e desatentos operadores de máquinas de xerox....
Vocês provavelmente nunca assistiram, mas foi um recorde de público e ficou 6 anos no ar na Ciudad del Uspê, uma província mui fértil e mui longínqua de Desarrollo.
Vejam, com exclusividade, cenas do último capítulo no qual a mocinha defende, com louvor, graça e distinção, sua tese.
Este capítulo só irá ao ar dia 26 de abril do corrente ano.
A Engrenagem

Ás vezes Luma se pergunta o como fazer as coisas funcionarem. Os objetos, o corpo, os sonhos, o amor. Está tudo aí; em perspectiva, em possibilidade, na expectativa. Estaria tudo dentro de si? Sendo amadurecido, fermentado, adubado e quando estivesse verdadeiramente pronto aconteceria? É preciso não ter pressa. Paciência Luma, avalie, reflita, fermente. Permita-se a transformação sincera, a melhoria gradual, permanente e invisível.
Mas, e se estiver lesmolenta, plasta? Cautela excessiva o rabo do bicho. Bicho-preguiça? Bicho-medo? Do erro, mudança, acerto? Medo de não ser genuína, medo de mudar as peças que delicadamente encontraram lugar, função, felicidade. Nem tudo é Pluma, Luma, disciplina é fundamental. Disciplina é sempre exterior, falsa. É alguém te mandando, te impelindo a fazer, ainda que não seja você. Acorde cedo, vá para a academia, não coma chocolate, depile-se, ligue para sua mãe, estude, exercite-se! Disciplina, rainha da engrenagem, chave de fenda.
quarta-feira, 14 de março de 2007
Viajando com Adorno

Não há possibilidade de o sujeito se constituir autonomamente no mundo moderno, diz o coleguinha Theodor Adorno no texto Mensagem numa garrafa, porque só se é algo em relação ao Outro, em relação às instituições, como se o próprio sujeito não tivesse valor de uso, e sim de troca somente. Tal valor resultaria na falta de liberdade, já que, de acordo com o amigo, não pode haver liberdade enquanto tudo tem um preço.
As pessoas submetem suas vidas às condições impostas pela lógica do mercado de trabalho e, em última instância, perdem possibilidades de movimentação: só podem estar dentro da engrenagem; estar de fora é ser marginalizado. Não podendo – ou não querendo – se movimentar, o sujeito espera sempre pelo seu 'semelhante' e, por isso, “o medo de amar o outro é, sem dúvida, maior que o de perder o amor desse outro” (p.43). Bonito isso que o colega disse, não? E ele vai além...
Constituindo-se através da sociedade de consumo, o sujeito, segundo Adorno, só pode mesmo se reificar, se 'coisificar' e se fragmentar. Reificado, cada vez se separa mais, tanto daqueles sujeitos de mesma classe social, quanto dos de classes distintas – e aí está o problema para o coleguinha: “A humanidade só sobreviverá se os extremos se unirem” (p.50).
Paradoxal, não? Mas compreensível.
ADORNO, T. W. (1996[1962]). Mensagem numa garrafa. In: ZIZEK, S. (org). O mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto. p. 39-50.
p.s. Isso é a 'adaptação' de uma resenha escrita em 2003.
terça-feira, 13 de março de 2007
Voltando
Tenho vontade de dizer olha eu aqui de novo, mas eu não tô nem aqui! Tô flutuando em algum espaço entre minha mente e meu corpo, sem canal de contato para fixar-me nem numa ponta nem outra. O quintal seria um refúgio, se eu já não tivesse fugido e tão distante de mim mesma que nem me vejo mais como sendo parte de mim. Venho só dizer que vou não vir...
Por ora, contemplo.
Por ora, contemplo.
segunda-feira, 12 de março de 2007
A visita da Luxúria
Ontem, não estava em mim. Estava em outro.
Meu sopro de vida estava longe, viajando.
A luxúria foi de manhã sem olhar para trás, sem perceber que da janela estava o observante do caminhante.
Não me senti usada, pois nem ali estava.
Não me senti carne, pois acho que era de plástico ou outro material.
Não estava ali com toda certeza.
Suas perguntas, chamadas de indiscretas, passaram pelos meus ouvidos soando um quê de narcisismo.
Respondi verdadeiramente, o que passou em minha mente, sem maiores constrangimento ou doçura. Fui bem certeira àquelas perguntas que nada acrescentariam.
Meu coração nem sei se batia. Creio que não. Ele não estava compactuando daquela sinfonia desafinada.
Sei que a luxúria percebeu, por isso seu sono foi intranqüilo, bem como o meu. Talvez por isso ela saiu sem olhar para trás, como que percebesse que não foi bom, que não havia ninguém naquele espaço. Ela estava sozinha, suando e gozando. E desta forma, foi sem qualquer vínculo.
No momento do encontro, um Beijo na face.
Ao caminhar na noite estrelada e fria, sem um abraço, sem qualquer carinho.
Na alcova mostrou a sua sede. Bebeu ferozmente. Sua meta era passar a lança na "maçã triângular".
Pensava: "Não estou aqui". Estava traindo meus sentimentos, meu corpo e meu espiríto. Tanto que todos, sentimentos, corpo, espiríto saíram, deixando algo que não era eu.
Só havia meus olhos que não conseguiam olhar para nada, nem para os olhos da luxúria.
Estava com vergonha de mim, do que estava deixando de fazer.
Meu sopro de vida estava longe, viajando.
A luxúria foi de manhã sem olhar para trás, sem perceber que da janela estava o observante do caminhante.
Não me senti usada, pois nem ali estava.
Não me senti carne, pois acho que era de plástico ou outro material.
Não estava ali com toda certeza.
Suas perguntas, chamadas de indiscretas, passaram pelos meus ouvidos soando um quê de narcisismo.
Respondi verdadeiramente, o que passou em minha mente, sem maiores constrangimento ou doçura. Fui bem certeira àquelas perguntas que nada acrescentariam.
Meu coração nem sei se batia. Creio que não. Ele não estava compactuando daquela sinfonia desafinada.
Sei que a luxúria percebeu, por isso seu sono foi intranqüilo, bem como o meu. Talvez por isso ela saiu sem olhar para trás, como que percebesse que não foi bom, que não havia ninguém naquele espaço. Ela estava sozinha, suando e gozando. E desta forma, foi sem qualquer vínculo.
No momento do encontro, um Beijo na face.
Ao caminhar na noite estrelada e fria, sem um abraço, sem qualquer carinho.
Na alcova mostrou a sua sede. Bebeu ferozmente. Sua meta era passar a lança na "maçã triângular".
Pensava: "Não estou aqui". Estava traindo meus sentimentos, meu corpo e meu espiríto. Tanto que todos, sentimentos, corpo, espiríto saíram, deixando algo que não era eu.
Só havia meus olhos que não conseguiam olhar para nada, nem para os olhos da luxúria.
Estava com vergonha de mim, do que estava deixando de fazer.
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